quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Viagem pouca é bobagem... o retorno da carcaça 1

A postagem programada para hoje desapareceu diante dos meus olhos — na hora de salvar esbarrei em alguma tecla e não houve CTRL Z que a trouxesse de volta.

Só não perdi inteira porque consegui salvar imagens do preview na outra aba... mas não ia dar tempo de redigitar tudo e colar todas as figuras a tempo de publicar, e também não ia dar tempo de passar toda a raiva...

Então vou deixar para reler com calma tudo que eu havia escrito, e aproveito a janela para publicar esta outra postagem que eu estava devendo há um bom tempo...

É o relato do fim da viagem a Penedo, feita em março, lembra dela?

Depois daquela esticada até Poços de Caldas, começou a etapa ainda mais turbulenta da viagem, Poços de Caldas – Campinas – Sorocaba...

Imagem: Google Mapas

E o motivo de eu não postar até agora é que fiquei meio deprimido de lembrar todos os percalços... 

Mas hoje, olhando para trás, os fatos se tornaram apenas lembranças e aprendizado.

Saindo de Poços de Caldas após o almoço, tomamos o rumo da SP-340 e de lá até Campinas passando por Mogi Guaçu e Mogi Mirim — esse último trecho de estrada já era velho conhecido de outra viagem com Jezebel.

Mas de Poços até Águas da Prata a estrada é muito boa, cheia de curvas, e Águas é um encanto de cidade pequena com vários quiosques com produtos locais à beira da estrada, que nesse ponto contorna uma bela praça. Muito charmosa.
Imagem: Alguém que fotografou e postou na web

A viagem seguiu sem nenhum susto até eu encontrar um caixa 24 horas e descobrir que o meu saldo estava horrivelmente abaixo de zero... não tinha mais dinheiro para pernoitar na estrada. 

Ou eu economizava e colocava gasolina para tentar chegar em casa, ou dormia em uma cama quentinha e empurrava a moto no trecho final — e dindin só ia cair na conta dali a vários e vários dias... 

Resignado, toquei em frente disposto a pernoitar em algum posto de gasolina aninhado ao lado de Edith, mó easy rider...

Aí lembrei que passando por Campinas poderia pedir acampamento na casa de Betho e Gi, como tinha feito na ida — economizaria o pernoite. 

Mas amolar o pessoal de novo? Não queria fazer isso novamente... 

Foi aí que o destino e a mãe Natureza intervieram.

Perto de Campinas, descubro que mudaram tudo no trevo de Paulínia / Barão Geraldo e a sinalização ficou muito precária... olha só que trevinho mais simples...

Imagem: http://www.portaldepaulinia.com.br/regiao/noticias/28184-acesso-a-barao-geraldo-pelo-tapetao-sera-interditado-por-90-dias.html


O pessoal sinaliza fazendo referência às cidades mais próximas, e não às mais conhecidas, se esquecendo que quem vem de longe não tem obrigação de saber para que lado fica Hortolândia ou Valinhos.

É complicado tomar uma decisão dessas com trânsito pesado e você vindo pelo lado contrário ao que está acostumado... um GPS nessa situação talvez atrapalhasse ainda mais, porque não estaria atualizado com as mudanças feitas no trevo.

O resultado é que nós e mais uma pá de gente acabamos errando a saída da rodovia, e fomos obrigados a atravessar por dentro de Campinas bem no horário do rush.

Por sorte eu tinha alguma noção da direção a tomar para atravessar a cidade, então não iria gastar muito mais gasolina.

Mas foi só chegar na área urbana de Campinas que armou o maior toró dos últimos muitos anos na região...
Vídeo e reportagem: http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2015/03/temporal-alaga-ruas-e-avenidas-e-deixa-campinas-em-estado-de-atencao.html

Rodando na chuva e fugindo do congestionamento na tentativa de chegar o mais rápido possível à Anhanguera para economizar gasolina, fomos parar na região que depois eu descobri ser a Lagoa do Taquaral.

Macaco velho viu que estávamos em uma baixada com chuva torrencial e a coisa ia ficar muito, muito feia em pouquíssimo tempo.

Procuramos abrigo em um posto de gasolina elevado antes que a água começasse a descer morro abaixo — ela ia se acumular e subir rápido na baixada em que estávamos.

Edith e eu nos abrigamos neste posto aqui:

Imagem: Google View

Foi entrarmos no posto e a água começar a subir.

Em poucos minutos a água subiu a ponto de cobrir o piso do posto, e olha só a altura na foto. 

Os frentistas, motoristas e mais uma pá de motoboys ilhados, todos caminhávamos dentro do posto com a água cobrindo as solas das botas.


De lá vimos imagens parecidas com esta, feita na região da Lagoa:



O pessoal ilhado orientava os motoristas a não tentarem entrar no posto, porque junto da calçada a correnteza era forte demais e a água estava mais funda.

Mesmo assim um furgão tentou e parou ali mesmo, quase foi arrastado. 

Outro carro o povo conseguiu impedir de fazer a mesma besteira, ficou meio submerso no meio da rua. 

Foi a sorte dos ocupantes, porque era mais leve que o furgão e certamente teria sido arrastado. 

A força da água na calçada derrubou uma garota que veio arrastada por vários metros. Quando passou em frente ao posto os frentistas e motoboys correram e conseguiram salvá-la. 

Ela perdeu bolsa e os sapatos, só não perdeu a vida porque o pessoal foi ligeiro e se arriscou a ser levado também. 

Infelizmente outras duas pessoas ali perto não tiveram a mesma sorte.
Reportagem: http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2015/03/bombeiros-buscam-2-desaparecidos-apos-chuva-em-campinas.html

Depois que as águas baixaram o cansaço da viagem era grande e finalmente me decidi a procurar abrigo com Betho e Gi — mas a caminho de lá a chuva voltou com raios realmente assustadores e ainda maior intensidade, e tivemos de parar novamente em outro posto mais acima por mais algumas horas. 

Amainada (mas não terminada) a chuva, tomei o caminho velho conhecido e acabei errando a saída para a casa do pessoal — já havia feito a mesma coisa na ida...

Retornei prestando extrema atenção para não errar novamente, e cheguei na rodovia sem encontrar a saída...coisa incrível.

Refiz o caminho e aconteceu de novo, era tanta água na viseira que não consegui enxergar a saída extremamente fácil de achar e conhecida de meia dúzia de vezes.

Novo retorno e errei mais uma vez a saída — concluí que forças misteriosas não queriam que eu passasse a noite lá e toquei em frente. Melhor botar a culpa no Sobrenatural de Almeida do que admitir que tenho déficit de atenção. Compensado por um bom senso de direção. Às vezes.

Peguei a Santos Dumont e a Castelinho debaixo de água e péssima visibilidade, decidido a arranjar algum lugar abrigado da chuva para dormir em Sorocaba ou Piedade. 
Naquela noite a chuva estava bem pior do que isso na Santos Dumont...
Imagem: http://correio.rac.com.br/_conteudo/2014/01/capa/campinas_e_rmc/143226-regiao-registrou-queda-de-mil-raios-durante-a-tempestade.html

Mas o cansaço era grande e não encontrei nenhum posto de gasolina acampável no sentido Sorocaba. 

E não queria fazer isso no centro de Sorocaba por medo de assalto, então retornei para um grande posto de gasolina quase na intersecção com a Castelo Branco.

Tinha quase certeza de que lá encontraria bancos externos para poder passar a noite deitado, mas não tinha nenhum...


Não tem banco do lado de fora para dormir...
Imagem: Google View

Acabei dormindo sentado na cadeira de uma lanchonete de beira de estrada da meia noite até as duas da manhã.

Mas o pessoal precisava limpar o meu cantinho, então tive de sair de lá e cochilei mais um pouco sentado no chão do lado de fora.

Mas era só ameaçar pegar no sono e aquela maldita máquina caça-níquel ali do lado repetia a gravação monótona e desanimada para convencer o pessoal a jogar ou ir embora.

Você... está... com... sorteee? ela repetia o tempo todo, e eu lá, querendo dormir, encharcado e gelado, sem grana para jantar, e ela vem falar em sorte?

Minha vontade era puxar o fio da tomada e dar uma risada maníaca do mal. Mas era bem capaz de eu ainda levar um choque...



Eram quase três da manhã quando abasteci e a carteira ficou extremamente magra.

Revisei o óleo da Edith e tomei o rumo de Piedade para pegar a estrada de Juquiá — torcendo para o pouco dinheiro no bolso permitisse colocar o restante da gasolina e... putz! OS PEDÁGIOS DA BR!!!!

Agora não ia ter dindin nem para o café da manhã... saco.

Ainda por cima, rodando e fazendo contas, descobri que o retorno mais próximo (estávamos no sentido oposto do nosso caminho) era longe pra dedéu... em Pirapitingui. 

Seguimos até o retorno lamentando cada gota de gasolina desperdiçada nessa volta besta. 

Agora no caminho certo, vi uma placa antes de entrar no centro de Sorocaba que indicava a rodovia Raposo Tavares e a cidade de Alumínio.

Ora, eu lembrava que Alumínio e Piedade ficavam na Raposo Tavares! Dedução lógica, era o caminho a seguir.

Beleza, pensei eu, vou cortar caminho e economizar gasolina! Nota mental: Nunca confie em deduções lógicas baseadas em GPS mental. Piedade não fica na Raposo Tavares.

Se eu tivesse confiado em minha intuição, teria comido esta barriga aqui:
Imagem: Google Mapas

Com a gasolina racionada, seria um desastre.

Mas como eu sou o primeiro a não confiar na minha intuição, parei para perguntar no primeiro posto SOS da estrada, não muito longe de Sorocaba.

Esclarecida a rota, me aconselharam a não voltar exatamente pelo mesmo caminho, eu poderia cortar um bom pedaço se saísse em determinada bifurcação que eu teria que tomar cuidado para não errar, senão o retorno seria muito longe.

O que é que acontece quando é madrugada, você está cansado, está chovendo, você tem pouca gasolina e não pode errar o caminho?

Adivinhou.

Acabei passando novamente pelo lugar de onde eu tinha saído e tive que fazer todo o percurso idiota novamente até o retorno em Pirapitingui.

Tive quer ir novamente até aquele retorno besta láááá looonge, chorando mais uma vez toda a gasosa perdida e já imaginando que eu teria que empurrar a moto do Paraná até em casa. Ainda bem que a serra de Garuva é uma descida.

Pensa que acabou o drama?

Na próxima parte, o final final, a coisa ficou ainda pior...

Na parte final eu conto a emoção de chegar a Piedade para finalmente poder descansar, e descobrir que Piedade não é Piedade...

Um abraço,

Jeff

4 comentários:

  1. Acompanho o blog há pouco tempo, pouco mais que um mês. Cheguei a digitar um belo comentário esses dias, mas ao fazer login na conta para poder comentar, perdi todo o conteúdo, estava tarde e desisti.

    Obrigado pelo conteúdo, já aprendi muito. Com 22 anos, pouco mais que 3 anos de experiência como motociclista, já passei por alguns sustos, já bateram duas vezes na minha traseira (nada demais, felizmente) e até agora não cai nem bati, e espero continuar assim. Medo é constante, trânsito aqui em Campo Grande - MS é violento e impaciente.

    Passei a cuidar mais da minha querida Titan 150 com o tempo, mas ela sofreu nesses ~19 mil km rodados, principalmente pelo óleo. Só com 18 mil troquei o óleo da concessionária pelo mineral 20w-50, e não verificava o nível.
    Como o manual recomendava a troca de 4 em 4 mil, e eu trocava de mil em mil, nem me preocupava.
    Essa é a primeira moto, e no primeiro dia eu li totalmente o manual ao chegar em casa, mas mesmo que soubesse o que agora sei, tenho certeza que deixaria passar os "pequenos detalhes".
    Pena não ter conhecido o blog muito antes.

    Aguardo a continuação dessa história, e de outras experiências também.

    Pouco a pouco, vou lendo as postagens anteriores.

    Abraço!

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    1. Obrigado, Wesker!
      Fico contente que o blog seja útil!
      É bom poder contar essas histórias e saber que alguém gosta de ler! Espero que elas também sirvam para o pessoal não passar os mesmos perrengues que eu...
      Um abraço, e obrigado por acompanhar o blog,
      Jeff

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  2. Respostas
    1. Ô saudade desses maus bocados...
      Tem mau bocado que vale muito a pena...
      Ainda mais aquelas que são chamadas de "pedaço de mau caminho".
      Um abraço,
      Jeff

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