Mostrando postagens com marcador Estrada. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Estrada. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Meu pior tombo e a importância de usar equipamentos de proteção

Bom, agora a parte que todo mundo estava esperando, o tombão.

Felizmente uma câmera no local flagrou o momento em que fui ao chão:

Na hora em que a roda desgarrou, não deu tempo de pensar em mais nada, e enquanto eu via as pedrinhas rolando na viseira do capacete, meus pensamentos foram apenas dois.

Felizmente, um gravador no local registrou meus pensamentos:

NÃO!!!! NÃO!!!!.... que legal, o capacete está funcionando!

O local do acidente foi este aqui, na Serra do Ribeira:
Essa estrada corta o parque até a cidade de Apiaí, onde começa o Rastro da Serpente.

O estrago na Jezebel foi este:

Para-lama quebrado (agora o dianteiro, o traseiro já tinha sido remendado com arame na mesma viagem), os dois espelhos, os dois piscas do lado direito ficaram pendurados e acabaram caindo pelo caminho, os alforjes rasgaram na emenda, o cabo do velocímetro se soltou na pancada com a placa... 

E falando na placa, ela foi a grande heroína do dia:
Não dá para ver direito na foto, mas depois dela tem um abismo.

Se não fosse a placa, Jezebel teria deslizado para o abismo, um tombo de uns 100 metros, pelo menos.

Com a escapada da roda, ela desviou para a direita e bateu contra a placa, enquanto eu deslizei junto, mas do lado da estrada — o maior risco que corri foi ser atropelado por uma onça, porque na estrada não passava ninguém.

Não passava ninguém e eu preso embaixo da moto, sem conseguir sair.

Quase quebrei as costelas, a primeira coisa que fiz foi avaliar se tinha quebrado ou não — a segunda foi desligar o corta-corrente com o pé livre, o outro preso embaixo da moto.

Cabeça fria nessa hora: 

Se eu me levantasse afobado, uma costela quebrada poderia se deslocar e perfurar o pulmão, e aí eu estaria no mato sem cachorro. Só onças.

Depois de apalpar e ter certeza de que as costelas não estavam quebradas, mas poderiam estar trincadas (porque a dor era muito forte), começou a luta para sair de debaixo da moto vazando combustível... tudo era urgente e eu não conseguia fazer nada com rapidez.

E por que eu não conseguia me levantar?

Porque o pé livre não conseguia fazer força... eu estava usando botinas desse tipo aí embaixo (não eram da mesma marca, mas o modelo é parecido):
Bonitinhas e baratinhas, mas com um sério problema se você for viajar em uma estrada com onças:

No tombo, a bota deslizou no pé e ficou no meio do caminho, não entrava nem saía do pé.

Deitado eu não conseguia calçar de novo porque ela entra muito justa, nem tinha como tirar de vez porque não tinha ponto de apoio e a dor nas costelas impedia de me sentar ou fazer força.

Felizmente os outros equipamentos funcionaram bem.

O capacete robocop aguentou a pancada e protegeu muito bem o meu rosto. 

Eu sempre achei que a queixeira seria arrancada no caso de um tombo — e também sempre achei que nunca iria cair — mas de moto, nunca pense em nunca acontecer um acidente, use sempre os equipamentos de proteção.
E a queixeira realmente quase foi arrancada durante a queda. 

Ela quebrou na articulação — se eu estivesse uns 10 km/h mais rápido, a outra articulação sozinha não teria aguentado, a queixeira seria arrancada e eu certamente teria me machucado.

Moral da história: 

Capacete robocop nunca mais, o conforto não compensa o risco.

Quem também se portou muito bem foi a jaqueta de couro, fez o trabalho dela com perfeição e ganhamos estes registros de batalha que nos enchem de orgulho:
E o que causou tudo isso?

Acredite se puder, aquelas pedrinhas ridículas que resolveram se soltar na nossa frente — e o uso de medicação contra dores que prejudica nossa capacidade de julgamento e reação.

Desviando de um buraco, ficamos muito perto da lateral suja da estrada, e não deu tempo de fazer mais nada, só ir pro chão colecionar mais uma história.

Aquelas pedrinhas ridículas no canto direito da foto — Jezebel está na contramão, virada em direção da subida para não cair do cavalete, a serra é íngreme e em descida nesse trecho.
Depois que consegui sair e me levantar, e com dificuldade e muita dor calçar novamente a bota, aí do nada apareceram dois carros e em seguida mais um.

O pessoal dos dois carros me ajudou a colocar a moto em pé e o pessoal do mais um se mandou.

Foram os primeiros que bateram estas fotos, menos a do tombo e a vista da serra, e me ajudaram a prender os alforjes caídos em cima da moto com os elásticos que eu sempre carrego.

Eles que perceberam que eu e a Jezebel quase tínhamos caído no abismo.

Duas semanas antes, um motociclista e sua moto caíram em outra barroca da mesma estrada e só foi resgatado porque ficou horas chacoalhando uma árvorezinha comprida e um motorista desconfiou que aquilo não era coisa de macaco.

Depois de ter certeza de que eu conseguiria subir de novo na moto e ligar o motor, e eu dizer que estava tudo bem, eles foram embora, gente boa — até endireitaram a placa para que ela continuasse avisando o pessoal sobre a curva logo à frente. E quem sabe segurar alguma outra moto...

Depois de alguns dias me enviaram as fotos porque eu havia passado meu email atual ainda não hackeado e já estava pensando na postagem que iria estrear de novo o blog...

Eu disse que estava tudo bem, mas não estava não.

A dor era muita, agora na coluna e também nas costelas. Costelas dóem pacas.

Subi na moto e percebi que não havia removido o cabo do velocímetro que estava arrastando no chão.

Descer e subir de novo com a dor que eu estava? Nã nã nã. 

Pisei no cabo e acelerei a moto, ele ficou por lá mesmo, consciência pesada de poluir a natureza, mas era questão de sobrevivência.

Agora eu iria mesmo chegar a Apiaiaiai com a noite caindo, não tinha como ir ligeiro, cada buraquinho e pedregulhozinho da estrada eram motivo de dor intensa... eu não podia escorregar nas poças de lama, eu tinha de chegar rápido até o hospital e bater uma radiografia naquelas costelas.

Mas nessas horas tudo ajuda, e do nada no meio de lugar nenhum surgiu uma onça um filho de cadela que começou a me seguir e avançar contra o pé que eu não podia dar uma bicuda por causa da dor. Espaço reservado para protestos de defensores de animais que não pilotam motocicleta.

O totó não desistia e eu não tinha como fugir dele, até que tive a ideia de acionar a embreagem e acelerar ao máximo. Jezebel não é veloz, mas sabe como fazer um barulhinho bom.

Cheguei no hospital e uma enfermeira percebeu que eu não estava visitando um parente, então me ajudou a descer da moto. 

Atendimento preferencial para idosos estropiados, radiografias tiradas, costelas inteiras, pensei que ia receber um colete de gesso ou pelo menos um enfaixamento para diminuir as dores.

Costela não pode enfaixar. Pelo menos, não no meu caso. Ia ter de conviver com a dor. Um mês inteiro de dor, acordando a toda hora por causa da dor.

E aí, medicado contra dores de novo, vem a questão: o quequeu faço?

Eu TINHA de ir até Floripa para receber meu pagamento, ou não teria como voltar para casa.

A noite de quinta-feira eu passei no hotel emendando as duas metades dos alforjes com laça-gatos, felizmente eu tinha levado uma dúzia deles. Furava o couro corvim com a chave de fenda e suturava com os laça-gatos.

O conserto ficou tão bom que eles estão lá até hoje. Emendados e remendados pela segunda vez. 

Chegou a madrugada, hora de dormir, hora dos caminhões que levam madeira para as padarias e pizzarias começarem a subir a ladeira em frente ao hotel. Noite inteira sem dormir, e com dor.

Sexta-feira pela manhã, éramos os primeiros na loja/oficina de motos de Apiaiaiai.

Peripécias para conseguir que minha filha fizesse o pagamento do conserto sem poder falar diretamente com ela, tipo email sem fio via balconista da loja.

No final da história, consertos realizados, Jezebel ganhou um para-lama amarelo que odeio até hoje e tive de comprar o único capacete que entrou muito apertado na minha cabeçona gorda.

Fomos os primeiros a entrar na oficina e só saímos quando perdi a paciência às três da tarde e fui buscar a moto lá dentro da oficina, eu precisava chegar até Floripa ainda naquela noite porque tinha o compromisso de me encontrar com minha amiga e fonte pagadora no dia seguinte.

Estavam esquentando o motor para lavar a moto. Pois é, não pergunte. Não tem explicação.

Chegamos em Curitiba já estava anoitecendo e ainda tínhamos 300 km pela frente, com dores, cansado e com problemas para digerir aquela maldita coxinha de beira de estrada.

O cansaço era tanto que diminuí o ritmo para poder ficar atrás de um caminhão cheio de luzes sem ter de decidir o que fazer, apenas não perder as luzinhas de vista.

Depois de uns 50 km o motorista desconfiou da moto que o seguia e parou no acostamento, acabei parando junto, foi uma luta conseguir sair dali.

Chegando em Palhoça, rodei a cidade inteira várias vezes procurando o hotel que eu conhecia o caminho de cor.

Mas de noite e tão cansado, eu não sabia mais para que lado estava a serra e para que lado estava o mar, e de madrugada não tinha para quem perguntar.

E ainda por cima, sob os efeitos desesperadores da coxinha de Curitiba.

Acabamos morrendo em um motel na BR-116 ops, BR-101 lá pelas 6 da manhã onde pude tomar um banho. E lavar as roupas — coxinha em Curitiba, nunca mais. 

Jezebel ficou na garagem (não passava pela porta da suíte) e o motel tinha um degrau daqueles que você não vê e fui para o chão, onde fiquei me perguntando why, God, why?

Mas no final final deu tudo certo, até recuperei o blog um ano depois, e estamos aqui para contar a história.

É como diz a camiseta que eu usei na viagem:
Continue rodando, nunca desista

"Ué, falou tanto, mas cadê a jaqueta?"

Motivos religiosos.

Minha religião não permite usar jaqueta em trajetos inferiores a 5 km. Se eu cair de casa até a padoca, eu fiz por merecer.

Aproveito para mandar um forte abraço aos meus amigos Daniel e Meri que bateram as fotos e me deram sustança enquanto estive por lá, e agradeço aos leitores pela paciência de ouvir até aqui,

Jeff & Jezebel

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Uma aventura cheia de buracos com direito a precipício

Ontem eu não expliquei como recuperei o acesso ao blog... foi macumbaria tecnológica do meu amigo Vinícius que eu demorei a conseguir colocar em prática. É bom ter amigos que mexem com computador. ("Mexer com computador" é a frase que mais irrita um profissional de TI. Mas se não sacanearmos os amigos, qual a graça? Muito obrigado mais uma vez, Vinícius!)

Bom, a história de hoje começou na BR-116.

Sabe aquela via onde até motos pagam pedágio para a concessionária garantir a qualidade do asfalto? Tá bom.

Não fazia muito tempo que tínhamos saído do Graal Japonês e, antes de chegarmos a Santa Rita do Ribeira, passamos por um buraco no asfalto pedagiado que era tão grande, mas tão grande... que o pneu traseiro bateu contra o para-lama.

O para-lama de plástico de alta qualidade prástico vagaba da Jezebel quebrou e a placa ficou pendurada pelo lacre, batendo na roda — e a capa do escape rompeu a braçadeira e ficou arrastando no chão.

Se foi ruim pra ela, imagine para a pobre coluna vertebral do esqueleto bem fornido que vos tecla.

Improvisei um reparo com elástico fru-fru e laça-gato (nunca saia de casa sem eles), e no primeiro posto fiz um bom reparo com arame. Na moto, não na coluna.

Almocei em Juquiá e desviamos para a SP-165.

Ao chegarmos a Sete Barras, onde por um trecho ela se chama SP-139, caí na besteira de pedir informação no posto ipipiranga. É, aquele mesmo.
Imagem: google maps errados. 
A seta laranja é a Jezebel e o ponto preto é o meu capacete. 
E eu sou aquela forma aerodinâmica azul entre o capacete e a Jezebel.

No posto disseram que iríamos encontrar a estrada para Eldorado no ashjsoubiu nhanfaru a ponte.

“Onde????”

“Ashjsoubiu nhanfaru a ponte.”

É, eu devia ter tirado o capacete para ouvir melhor. 

Agradeci e segui em frente, pelos gestos eu entendi que precisava virar à direita em algum lugar perto da ponte.

Se ele mencionou a ponte, então devia ser depois da ponte... não faria sentido falar em algo antes da ponte.

Mas um pouco antes da ponte, apareceu uma placa apontando Eldorado por uma estrada de terra feinha que só ela... não podia ser isso.

Então passei pela ponte, avancei um bom trecho, mas nada de estrada lateral, então devia ser mesmo aquela estradica com a placa logo antes da ponte.

Como não uso celular, fiz um esforço mental e relembrei o mapa do google, eu havia estudado o percurso por vários dias, a estrada asfaltada era mesmo antes da ponte.

Imagem: google maps errados até hoje

“Deve ser só um trecho inicial feinho de terra”, pensei eu.

O trecho inicial foi ficando cada vez menos inicial e cada vez mais feioso, chegou um ponto em que achei que não valia mais a pena voltar, o fim do suplício devia estar próximo. Não estava, ainda tinha uns 20 km até a primeira cidade.

Até hoje o mapa do google mostra asfalto (estrada preferencial amarela) onde é terra, e terra (estrada secundária branca) onde na verdade é asfalto — confira no google street view. Eternally grateful, google...

Foram 35 km da pior estrada de terra que você imaginar, com vários trechos de subidas e descidas aterradas com pedriscos em que a moto ia para onde bem entendia — Jezebel queria mesmo era fugir dali.

Sem contar que quase perdi a vida nos vários mata-burros... 
Imagem: Mata-burro pra quem não conhece. Mata-burros matam burros e motociclistas.

As costelas de vaca (não de boi) eram tão ruins que comecei a ter medo das conexões elétricas se soltarem, os parafusos afrouxarem, as porcas voarem, a moto começar a se desmanchar no meio da estrada, e nós rodeados por bananas. 

Bananas longas frutas amarelas, porque não havia uma alma por perto, nem ao menos um posto ipipiranga. Bananas.

Ao chegarmos a Eldorado, minha coluna estava abrindo o bico de papagaio — tive de recorrer a um analgésico forte para seguir viagem. 

Pior burrada, como se verá.

Pilotar uma moto sob efeito de medicação para dor pode ser fatal, algo que eu já sabia, mas não tinha escolha — além de rever os amigos, o outro objetivo da viagem era receber um pagamento que não pôde ser feito por depósito bancário... ou eu chegava a Floripa, ou não teria como voltar para casa.

Bom, até poderia voltar, mas nos dias seguintes não teria o que comer, o que seria um problemão.

Na farmácia o assunto foi a precariedade da estrada, mas o pessoal estava animado, isso ia mudar.

O deputado nascido por lá e que nunca fez nada pelas estradas da região agora tinha sido eleito para um cargo importante lá em Brasília — acho que presidente, sei lá, faz tempo que eu desisti de acompanhar a política.

O homem passou o fim de semana na terra natal e prometeu fundos e mundos.

Disse que ele faria a coisa mudar — e os coitados que acreditaram na promessa estão esperando alguma ação do governo federal até hoje.

Só no final do ano passado disseram que ia sair uma merreca do governo paulista, menos de 200 milhões para toda a enorme região do Vale do Ribeira. 

Só vai dar para pagar as placas anunciando as obras, que por lá são grandes. As placas. As obras são só tapa-buraco. Buracos mal tapados, ainda por cima.

No caminho para o Parque do Ribeira fui contemplado com outro buraco, um buraco camuflado no meio de outros buracos que me fez sentir saudades do primeiro buraco lá da BR — até parei para ver se o buraco tinha danificado a roda, foi difícil sentar na moto de novo. Hummm... ficou esquisito.

Cheguei à pequena Iporanga, 4.333 habitantes, e a moto não deu partida depois da parada obrigatória da tubaína da tarde.

A conexão de carga da bateria realmente tinha se soltado com a vibração e a bateria tinha morrido, felizmente foi um problema fácil de achar e resolver, só apertar de novo o conector e fazer a moto pegar no tranco.

Precisei apertar bem apertado para não arriscar ficar sem farol nem partida no meio da serra, não seria uma boa tentar dar partida no tranco num lugar cheio de onças no caminho para Apiaí. Se bem que a motivação seria forte.

Fiz o conserto morrendo de cansaço e dores, então tomei mais comprimidos e ganhei o conselho do frentista do posto (a parada obrigatória da gasolina da tarde):

“Vai atravessar o parque? A estrada é muito ruim, se eu fosse você eu não passava lá de moto. Nem de carro.”

“Pior do que a estrada até aqui?”

“Muito pior. Põe pior nisso. Nem ambulância passa por lá.”

Devia ter aceitado o conselho, ele não estava exagerando.

Com a buraqueira, minha coluna só piorava e o que eu mais queria era chegar até Apiaí para pernoitar e torcer para as dores sumirem durante a noite.

Pilotar uma moto sob efeito de remédios e com o foco fora da pilotagem — eu só pensava nas dores e na urgência em cair na cama — é um dos maiores erros que podemos cometer.

Um erro que pode ser fatal, aprenda comigo.

O percurso através da mata cerrada do Parque Estadual foi ainda mais demorado e sofrido, até que chegamos a um trecho em que a estrada melhorou um tiquinhozinho de nada.

A serra quase escurecendo, eu querendo chegar em Apiaí antes do fim da luz, pensamentos chegando lá antes da moto, por puro desespero comecei a aumentar a velocidade um pouco mais na medida em que a terra melhorava.

Minha percepção prejudicada pelos remédios dizia que eu não estava correndo, talvez uns 40 km/hora (mas talvez fosse um pouco mais) — foi o suficiente.

No meio da estrada tinha umas pedrinhas...

Pedrinhas bestas, nada comparável nem de longe ao que já tínhamos passado para chegar até ali — antes de tomar a medicação.

A estrada não tinha acostamento, muito menos guard-rail, e as pedrinhas ficavam do lado de um precipício na serra...

De repente, não mais que de repente, a roda dianteira desgarrou e fomos pro chão como duas jacas pachorrentas.

E na próxima postagem eu conto o desenrolar do drama. E o rolar das jacas.

Spoiler: Sobrevivemos quase inteiros e temos fotos pra mostrar.

Um abraço,

Jeff

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Um acidente muito dramático

Você está passeando por uma estrada super tranquila quando encontra uma moto caída no meio da pista.

Assista, porque você não imagina o que acontece em seguida:


Se você disse que o pessoal errou em remover a vítima, o errado é você.

O fogo ia se alastrar rapidamente pela mata, e se não fosse a ação do socorrista, o piloto acidentado poderia ter morrido queimado.

Em uma situação como essa, a vítima certamente está com fraturas que podem se complicar com a movimentação.

Mas entre morrer queimado e sobreviver com sequelas, certamente ele escolheria a segunda.

Os próprios socorristas estavam correndo o risco de ficarem presos na mata em chamas... 

A fumaça e o gás carbônico resultante da queima limitam o oxigênio para respirar e podem fazer o pessoal desmaiar rapidamente.

Tudo é questão de pensar rápido e agir da melhor maneira possível, considerando os riscos à vítima e, fundamentalmente, a você mesmo.

Afinal, você não pode se tornar outra vítima necessitando de socorro.

O que causou o acidente?

Excesso de velocidade de alguém.

As duas motos se chocaram porque alguém desgarrou na curva.

Um passeio tranquilo por uma estrada tranquila pode virar o seu maior pesadelo por conta de uma bobagem de alguém.

Não seja você a cometer essa bobagem.

Um abraço,

Jeff
PS: Encontrei este vídeo no final de uma coletânea, então acho justo mencioná-la. 

Além deste acidente mostrado no final da coletânea, são outros 20 casos bem ilustrativos de coisas para não se fazer em cima de uma moto:


Bom aprendizado,

Eu de novo

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Um acidente bem típico

Repare nesta imagem e me diga o principal fator que causou este acidente:
Imagem e reportagem: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2017/07/17/interna_cidadesdf,610189/acidente-deixa-motociclista-gravemente-ferido-na-br-020.shtml

Não vale dizer que o carro entrou na frente da moto!

Também não vale dizer que o motorista não viu a moto, porque a resposta estará somente 50% correta.

Quero saber se você percebe a causa fundamental, o motivo de o carro ter entrado na frente da moto... há várias dicas na imagem acima.

Ainda não matou a charada?

Aí vai a dica definitiva:
Imagem e reportagem: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2017/07/17/interna_cidadesdf,610189/acidente-deixa-motociclista-gravemente-ferido-na-br-020.shtml

Agora ficou fácil, né?

Olhe o tamanho das sombras no asfalto...

O motorista não viu a moto porque o sol estava brilhando forte por trás dela logo ao amanhecer.

O acidente ocorreu à 07:20 da manhã, e as fotos provavelmente foram feitas por volta das 8:00...

Na hora do acidente, o sol estava ainda mais baixo no horizonte, as sombras estavam ainda mais longas do que as das fotos.

A moto simplesmente desapareceu ofuscada pelo sol, e o motorista entrou na frente dela.

Um carro, ônibus ou caminhão seriam percebidos muito mais facilmente. Entretanto, dependendo da intensidade solar e da falta de nuvens, eles também poderiam desaparecer ofuscados pelo Sol.

Pense nisso quando estiver pilotando logo de manhã cedo e também ao cair da tarde.

Se o sol estiver baixo no horizonte, se você ver vir enxergar sua sombra bem longa diretamente à sua frente, ou se ela estiver apontando na direção de um carro pensando em atravessar a pista — quase certamente o motorista não estará te vendo.

Então redobre triplique aumente muito sua atenção e já se prepare para uma possível fechada.

Saber que não está sendo visto, imaginar que você e sua moto são invisíveis o tempo todo, é um dos fundamentos da pilotagem defensiva.

Estar atento a detalhes como esse evita situações bem perigosas.

Um abraço,

Jeff

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Moto saindo pela tangente no alto do morro e primeiros socorros

Lembra daquela postagem de setembro do ano passado?

Aquela onde eu falo que motos em alta velocidade perdem o contato com o solo e saem em linha reta em uma curva no alto de uma elevação?

Esta postagem aqui, ó:
Postagem: http://minhaprimeiramoto.blogspot.com.br/2016/09/moto-morro-abaixo-e-moto-morro-acima.html

Apareceu um vídeo ótimo que mostra isso acontecendo com uma Hayabusa — uma moto pesada — e o drama de se acidentar no meio do nada.

Essa fogueira foi tudo que restou da moto — ainda bem que o piloto sobreviveu em condições de ser hospitalizado:
Imagem: https://www.youtube.com/watch?v=iXSvQxiQYOY

Infelizmente, o autor não permite embutir o vídeo aqui no blog. Deve ser mais um que não sabe que reproduções do vídeo aqui contariam como visualizações para ele...

Então você terá que ir até o youtube neste link para assistir o vídeo

Note logo aos 0:40 a subida intensa e a curva no alto dela — e como a moto seguiu em linha reta porque o piloto perdeu totalmente o controle.

"A mudança de trajetória mais a diminuição da aderência por causa da mudança de inclinação da pista fazem a moto em alta velocidade perder o contato com o solo."

Para saber mais detalhes sobre esse tipo de acidente muito comum com motos esportivas, mas que também pode surpreender o piloto em motos menores, leia a postagem Moto morro abaixo e moto morro acima quando quer sair de banda ninguém segura.

E quanto ao socorro ao piloto acidentado?

Vítimas de acidente não devem ser movidas, EXCETO quando expostas ao risco de queimaduras, sufocamento, intoxicação, afogamento ou outro risco maior no local do acidente.

Fraturas agravadas pela necessidade de remoção eventualmente podem se recuperar, desde que não causem uma hemorragia intensa — mas queimaduras graves tendem a ser fatais.

Então é questão de avaliar a situação e agir de imediato diante da escala de gravidade dos ferimentos.

Afaste uma vítima com traumatismos do local de um incêndio somente pela distância mínima necessária.

Considere que o calor também causa queimaduras à distância por radiação térmica, e não só por contato direto com as chamas.

E como você viu no filme, o fogo pode ficar mais intenso e se alastrar rapidamente.

Na hora de mover a vítima, faça isso imobilizando o pescoço e cabeça da melhor maneira possível e puxando pelos ombros / sovacos em linha reta na direção da coluna.

Uma pessoa desmaiada não segurará o peso da cabeça, evite que a cabeça se movimente durante o transporte.

Esta foto mostra uma técnica usada pelos bombeiros que ajuda a não movimentar muito o pescoço:

Passar uma cinta pelos ombros (na verdade, sovacos) da vítima para puxá-la...
Imagem e treinamento de bombeiros (em inglês, use o tradutor do google): http://www.fireengineering.com/articles/print/volume-164/issue-9/features/techniques-for-removing-victims-from-the-fire-building.html

Outra técnica para esse transporte:
Imagem e treinamento de bombeiros (em inglês, use o tradutor do google): http://www.fireengineering.com/articles/print/volume-164/issue-9/features/techniques-for-removing-victims-from-the-fire-building.html

Dificilmente você terá uma cinta numa emergência dessas, mas as fotos servem para mostrar como a tração pelos ombros / sovacos ajuda a manter cabeça e pescoço relativamente imóveis, evitando agravar uma lesão que pode causar uma paralisia permanente ou morte.

Puxar a vítima pelos antebraços poderia agravar uma fratura ali existente. Você correria o risco de ficar com os braços dela pendurados nas mãos e sangue esguichando para todos os lados, cena de filme de horror. Você não quer isso.

Puxar a vítima alinhada com o eixo do corpo minimiza a chance de agravar fraturas e causar novas lesões.

É sempre preferível aplicar esforços no sentido de alongar a vítima do que dobrar qualquer parte de seu corpo. 

Nunca tente carregar nos braços uma vítima de politraumatismo — todo movimento com tendência de fazer o corpo dela se dobrar irá agravar as lesões.
Imagem: https://br.pinterest.com/wredants/batman-and-superman/

Você só faz isso quando tem certeza de que não há nenhum osso quebrado, tipo uma pessoa que desmaiou pela fumaça em um incêndio em uma casa* — mas nunca um acidentado de trânsito.

*E ainda assim, somente depois de se certificar de que ela não bateu a cabeça ao cair, porque isso é suficiente para lesionar o pescoço.

Remoção do capacete, somente se estiver atrapalhando a respiração da vítima — e com o máximo cuidado para não movimentar o pescoço.

Aliás, a primeira coisa a fazer depois de afastar a vítima das chamas é se certificar de que ela está conseguindo respirar.

Não adianta salvar alguém de um incêndio para deixá-lo morrer com o capacete ou a dentadura tampando sua respiração.

Não dê água para a vítima — ela poderá se engasgar e a água nos pulmões irá complicar muito a situação no hospital.

É uma cortesia que pode resultar em uma pneumonia fatal — melhor esperar que o pessoal do resgate aplique soro na veia.

Nunca tente sentar a vítima, nem tente fazê-la ficar de pé ou andar — ossos trincados poderão se quebrar totalmente e cortar artérias ou perfurar pulmões e outros órgãos.

Se houver uma hemorragia grave, trate de contê-la senão a vítima morrerá antes da chegada do socorro.

O resgate na cidade não leva menos de 10 minutos, e no meio do nada pode levar horas.

Há outras postagens falando sobre este assunto nas abas "Como agir em acidente" e "Como agir em emergências". 

O índice de abas só fica visível na lateral direita da tela quando o blog é aberto em um computador desktop.

Um abraço,

Jeff

sexta-feira, 7 de abril de 2017

O que tem no meio da trilha?

O leitor Ric Pinal, a quem agradeço imensamente, enviou esta reportagem com vídeo de um acidente acontecido na Argentina:
Imagem, vídeo e reportagem: http://www.clarin.com/sociedad/insolito-accidente-cordoba-moto-choco-novia_0_HkcAWrKnx.html

É um ótimo lembrete sobre excesso de confiança.

O piloto conhecia muito bem a estrada e sabia que praticamente não tinha trânsito.

Por ironia, o único veículo por ali era o seu mesmo, dirigido por sua noiva, que aguardava pelos amigos motociclistas.

Ela estacionou do lado correto da pista, ele veio pela contramão e ocorreu o acidente, felizmente sem ferimentos graves.

vídeo da reportagem é ótimo para mostrar como pequenas elevações do terreno podem encobrir obstáculos grandes.

Assim como este:

Você não tem visão do que está atrás do morrinho, e quem vem de lá também não tem... fica impossível evitar o choque.

Outro risco são outras motos ou carros fazendo a mesma trilha.

Você nem imagina o que poderá encontrar depois da curva:

Mesmo em uma trilha deserta, você não pode confiar que está em uma trilha deserta...

O maior risco para os praticantes de trilha também pode estar justamente entre os próprios companheiros.

Veja este outro vídeo e note o que acontece a partir dos 05:30...


Todo mundo abusa porque aquela estrada não tem ninguém, mas se esquecem que estão em grupo.

E se alguma coisa mais grave acontecer, buscar ajuda em locais onde nem o celular funciona é coisa complicada. 

Por isso aquele conselho para praticar trilhas em duplas pode ser uma dupla roubada.

Roubada no sentido de os dois se acidentarem um com o outro e ninguém ser capaz de buscar socorro...

Trilhas desconhecidas podem levar a becos sem saída à beira do barranco:

Se em dois já estava difícil sair da situação, imagine sozinho sem ajuda e se arriscando a despencar barranco abaixo...

Pense nisso antes de se aventurar em trilhas muito pouco movimentadas.

Vale a pena lembrar o que o piloto que bateu no próprio carro comentou:

O capacete salvou a vida dele duas vezes. 

A outra foi atropelando um zorro, nome em espanhol para nosso graxaim.

Animais em estradas rurais sempre são um risco para trilheiros e aventureiros.

Um abraço, fique atento a esses detalhes e boas trilhas no fim de semana,

Jeff