Este piloto do vídeo nasceu de novo quando o pneu dianteiro dele soltou a banda de rodagem (dechapou) a quase 300 km/h e cortou a mangueira flexível do freio.
O quase acidente acontece aos 14:00:
O pneu era novo e a primeira coisa que o pessoal pensa é que o sortudo deu azar, "foi defeito de fabricação".
Tanto que a fábrica fez um laudo que constatou o defeito, substituiu o pneu e pagou o conserto da moto, quando poderia alegar algum descuido do piloto como uma pressão (calibragem) inadequada, algo difícil de provar.
Mas negar um pneu novo iria gerar uma disputa judicial e publicidade negativa muito ruim para a fabricante.
O pneu é este aqui:
O Diablo Supercorsa SP é aprovado pela pirelli para uso até 320 km/h, e a moto só vai até 299 km/h, então tudo bem, né?
Não, não está tudo bem.
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Por que um pneu dechapa?
Somando alguns ou todos estes fatores:
– a temperatura do asfalto...
– o acúmulo de calor gerado pelo atrito com o solo...
– a perda de resistência física porque a borracha amolece com o calor...
– os esforços gerados pelas inúmeras irregularidades do asfalto...
– o fato de que a banda de rodagem é aderida a quente e com o pneu quente ela fica mais fácil de se soltar...
– a alta velocidade periférica que gera uma grande força centrífuga para desintegrar o pneu...
– eventualmente uma calibragem inadequada (que além de danificar os flancos do pneu, contribui para seu aquecimento excessivo)...
– aquele fator que eu esqueci e alguém vai me lembrar nos comentários...
– dito e feito, lotes de matérias primas contaminadas que acabam indo para a linha de produção...
– problemas momentâneos com equipamentos durante a fabricação...
... tudo isso tende a soltar e descolar a banda de rodagem da carcaça do pneu, facilitando que ele estoure.
Pneu dianteiro estourado a quase 300 km/h em um autódromo já é um risco enorme, em uma estrada com tráfego é quase uma sentença de você-sabe-o-quê.
Além disso, há um fator fundamental que ninguém considera:
Há uma enorme diferença na utilização de pneus em uma pista de corrida e pneus em uma estrada.
Ainda mais uma estrada brasileira que mais parece um ralador de queijo...
Dá só uma olhada no asfalto ali do lado para ver o que o coitado do pneu tem que enfrentar em nossas estradinhas pedagiadas...
Sim, aquilo ali atrás na foto é um pedágio arrancando arrecadando dinheiro para a "excelente" conservação de nossas vias públicas...
Agora compare aquele lixo asfáltico com um tapete uma pista feita para receber motos a 350 km/h:
Termas de Rio Hondo é um autódromo argentino que fica na mesma latitude que Floripa, temperaturas semelhantes.
É uma pista moderna com traçado e médias de velocidade bem interessantes...
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Dados: http://www.motogp.com/pt/event/Argentina
Notou uma coisa?
Apesar de as motos atingirem mais de 330 km/h de velocidade na reta, a média de velocidade do circuito é de 168,4 km/h — o que dá 43 minutos de corrida.
E essa média é mantida durante no máximo 120 km.
Depois disso, os pneus vão para o lixo do autódromo.
Aí o pessoal por aqui tira algumas horas no fim de semana pra rasgar o chão...
As motos vão do primeiro posto da Bandeirantes até o Serra Azul... voam baixo na Dom Pedro I... sobrevoam a Fernão Dias... sobem e descem a serra do Tabuleiro... vão e voltam a Petrópolis... descem para Caraguatatuba...
Fazem isso a uma velocidade média muito maior que a do autódromo!
60 km no cacete pra ir, 60 km no cacete pra voltar, já deu a quilometragem de jogar fora os pneus de competição.
"Ah, Jeff tá falando abobrinha, o pneu pra estrada é mais resistente que o pneu de competição!"
Sim, de fato é.
A dúvida é:
Mais resistente, quanto?
Quantas vezes ele vai aguentar essa brincadeira no limite?
E se depois de brincar você precisar voltar para casa via um ralador de queijo como aquele do vídeo?
Com a adrenalina a mil, você vai considerar que uma estrada dessas pode destruir seu pneu fácil, fácil?
Vai resistir a abrir o gás só um pouquinho?
Será que o pneu vai aguentar?
Os casos que o pessoal documenta e sobrevive para contar a história a gente fica sabendo.
Mas muita gente boa teve uma surpresa muito desagradável e não teve como contar pra ninguém...
Também tem outra coisa:
As motos só vão até 299 km/h no velocímetro porque existe um acordo entre as montadoras para desestimular o pessoal a se matar tentando descobrir a velocidade máxima da moto...
Então ela sempre pode chegar mais perto do limite máximo do pneu nos momentos em que o velocímetro marca "só" 299 km/h.
Reportagem: http://www.motorfantastico.com/motociclista-circula-299-kmh-ultrapassado-r1/
Qual a margem de segurança nessa velocidade quando você considera o efeito ralador de queijo?
Quão perto de dechapar seu pneu chega a ficar após longo tempo em alta velocidade e péssimas condições do asfalto?
Isso nenhum engenheiro da fábrica de pneus poderá te dizer, porque cada ralador caso é diferente do outro.
Dica:
Os dados para estimativa de velocidade máxima para os pneus não são feitos em estrada no Brasil...
São feitos em pistas de testes e em autódromos e em dinamômetros/bancadas de teste sem raladores de queijo.
Tipo essas daqui lá na Europa:
Imagem, vídeo e reportagem: http://www.cycleworld.com/metzeler-roadtec-01-motorcycle-tire-review-first-ride
Olha só que asfalto pavoroso só que não da pista de testes usada por uma fabricante de pneus alemã:
Imagem e reportagem: http://www.cycleworld.com/2015/09/11/continental-sport-attack-3-sportbike-motorcycle-tire-performance-review
"Condições duríssimas" eles têm por lá, né?
Eles nem imaginam o que seja uma estrada pedagiada de terceiro mundo, muito menos uma estrada brasileira sem pedágio, então podem falar em 320 km/h...
Mas aqui no mundo real, qual é a margem de segurança necessária para aguentar o nosso rojão?
Então, por melhor que seja sua habilidade para pilotar, o negócio é nunca confiar demais na sua máquina.
Ela é projetada para condições medianas ou ideais lá no exterior.
Quanto mais perto do limite máximo você a pilotar — ainda mais aqui no Brasil — maior a chance de descobrir um fator que não foi levado em conta nos cálculos dos engenheiros.
Nem nas propagandas para vender pneus.
Sai mais em conta emitir um laudo apontando defeito de fabricação daquele pneu por causa de sdruws mal rebibocados e não se fala mais nisso.
Os departamentos de marketing de montadoras de motos e fabricantes de pneus nunca farão um alerta sobre os riscos de pilotar a moto no limite como este aqui do blog.
Ele salvaria vidas, mas afugentaria compradores para a concorrência e não ajudaria a vender motos nem pneus...
Um abraço,
Jeff
PS1: Agradeço ao meu amigo Daniel que enviou o vídeo! Forte abraço!
PS2: Estava eu pensando que este vídeo e a postagem resultante foi um verdadeiro presente de aniversário, quando entro no google e olha só o que eu encontro:
Um doodle animado do google!!
Fiquei tão emocionado!
Tão emocionado que nem vou comentar que eu fico mais velho e o google é que fica lelé...
Nem vou falar da raiva que passo em todas as postagens com o blogspot mudando a formatação do texto de acordo com a cabeça maluca dele... nem vou contar que assoprei a tela...
Afinal, hoje é dia de festa!!!
E vem aí uma nova fase do blog, novidades a caminho!
Abração pra todo mundo,
Eu de novo!