sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Me desculpe, errei ao falar sobre o óleo.

Péraí, errei mesmo?

Quando se chega na idade dos cabelos restantes bran... ahn... grisalhos, as ideias e a visão vão ficando meio confusas...
Imagem: Walkure Romanze, episódio 2 - Cada capacete mais bonito que o outro, senpai... pai... pai...

Segunda-feira levei um tremendo puxão de orelha do Daniel por causa da postagem do esvaziamento do radiador de óleo...

O email demorou para chegar porque precisou ser retransmitido para o novo endereço no hotmail.

E o que ele falou é verdade, taí o radiador de óleo da Fazer 250 :/

Imagem: Radiador de Fazer 250 com mangueiras de entrada e saída à venda na internet.

As mangueiras entram e saem por baixo e aqueles olhinhos assustados são os pontos de fixação onde vão os parafusos.

Não tem como o óleo ficar preso dentro do radiador.

Mas todos nós vimos que havia sim óleo preso nos dutos do radiador depois que o óleo parou de gotejar, então o que está acontecendo?

Levei um tempo para digerir a informação e pensar e tentar entender como eu poderia ter errado tão feio assim... os compromissos urgentes de final de ano me atrasaram e só pude escrever a resposta agora.

Vou começar relembrando tudo que falei sobre o assunto em postagens e nas respostas de comentários, se você já leu pule o texto em itálico e vá direto para a conclusão após ***:

Na postagem Cárter seco, cárter úmido e um engano muito comum eu disse o seguinte:

Nos motores de cárter úmido durante um bom tempo após o desligamento do motor uma quantidade de óleo permanece retida nas galerias que percorrem a carcaça e vão até o cabeçote do motor.

Esse óleo tem o percurso de retorno ao cárter dificultado por uma válvula de retenção instalada junto à bomba de óleo e também pelas folgas reduzidas da própria bomba nos motores de motos maiores. 


Nos motores de motos menores, essa retenção é causada exclusivamente pelas folgas diminutas da bomba de óleo, já que não são equipados com válvula de retenção.


E em resposta a uma dúvida sobre instalação de radiador de óleo em uma moto não projetada para isso, feita na postagem O que acontece com um motor com excesso de óleo, eu respondi

Adaptar um radiador de óleo tem alguns riscos sim. (...) Para começar, uma quantidade adicional de óleo será necessária. 

Além disso, para o radiador ser eficiente, o óleo precisaria sair da bomba e circular pelo radiador antes de entrar no cabeçote — mas o projeto do motor não prevê esse caminho, então o óleo teria de ser colhido via tampa do cabeçote.


Como garantir a lubrificação do comando no cabeçote enquanto o radiador é preenchido de óleo durante a partida do motor?


Com o motor desligado, esse óleo contido no radiador descerá para o cárter, tornando a partida mais pesada. Talvez o motor de partida e/ou bateria abram o bico com frequência imprevista. 


Dependendo da quantidade de óleo acumulada no radiador que desça para o cárter, pode até causar um calço hidráulico danificando a biela.


[Depois de ver a foto do radiador de óleo da Fazer posso descartar esse risco, a quantidade ali é insuficiente para um calço hidráulico.]

Mesmo a adaptação de uma válvula de retenção não garantiria que o óleo não descesse para o cárter, além de gerar uma contrapressão na bomba não prevista em 
projeto.

E na postagem Você pensava que a yamaha era santa? eu respondi:

O objetivo do tempo que eles mandam esperar [após desligar o motor] é justamente permitir o máximo de óleo retornar para o cárter.

De onde virá esse óleo?

Ele escorrerá das paredes do cárter, do meio dos dentes das engrenagens porque durante o funcionamento do motor o óleo é espirrado pelas peças em movimento. 


Mas a principal quantidade, aquela que fica dentro da bomba, filtro e galeria de óleo, essa demora mais a retornar porque as folgas internas da bomba nas motos pequenas e essa folga somada a uma válvula de retenção nas motos maiores dificulta o retorno por mais de 15 minutos. (...)


***
Mas naquela Fazer do vídeo da postagem, o óleo aparentemente parou de gotejar e não havia nenhuma válvula de retenção atuando — o filtro estava removido.

E mesmo que estivesse instalado, o filtro de óleo da yamaha nem sequer tem essa válvula. Jezebel está com a bateria arriada, não pude ir na concessionária conferir, mas a ausência da válvula é visível na foto.
Imagem: Vídeo da postagem O problema gravíssimo das dicas dr dicas da internet. O vídeo você acessa diretamente neste link.

Então qual a causa de tanta demora para o óleo retornar para o cárter que todos nós vimos?

Apenas as folgas internas muito reduzidas da bomba de óleo.

Aquele gotejamento não iria parar antes de vários e vários minutos.

Então o Daniel está correto em afirmar que eu fui uma besta em não considerar isso na hora de fazer a postagem.

Mas assim como essa demora enganou a mim, e olha que eu já sabia disso, ela engana a todo mundo que vê o vídeo.

E engana todo mundo que tem uma moto com radiador de óleo e faz essa troca.

Você poderá contar nos dedos de uma mão a quantidade de donos de motos com radiador de óleo que terá a paciência e o tempo disponível para fazer uma troca e ficar esperando o óleo gotejar naquele ritmo até todo o óleo descer do radiador. Só conheço o Daniel.

A imensa maioria dos proprietários não escoará o óleo do radiador, manterá aquela quantidade residual lá dentro e abastecerá com óleo novo.

E talvez seja também por esse motivo que tão poucos proprietários de Fazer 250 reclamam de problemas...

Ao repor o óleo apenas com a quantidade recomendada e mantendo óleo preso no radiador, eles estão fazendo inconscientemente aquela complementação que o próprio fabricante recomenda.

E por que isso funciona para preservar o motor da Fazer 250 e não funciona para o motor da CB 300?

Por causa do óleo muito fino usado pela honda.

Na CB 300, o óleo 10W-30 desce do radiador muito mais rápido e todo o óleo do radiador é drenado, enquanto na yamaha o óleo Yamalube 20W-50 causa uma demora que o pessoal não tem paciência de esperar.

Minha conclusão é que manter esse óleo residual no radiador, apesar de sujo, acaba sendo mais benéfico do que prejudicial para a vida do motor.

Quer a prova?

Onde estão os donos reclamando de problemas no motor das antigas CBX 250 Twister e Tornado que também usam óleo 20W-50?

Não tem, né?

E pode ser que o motivo seja esse, as motos com radiador usando um óleo de viscosidade mais elevada contam com um "reservatório" que uma troca feita às pressas não drena.

Mesmo sem medir e completar, acabam ficando livres do problema da quantidade insuficiente recomendada pelos fabricantes, mas pelos motivos errados.

Também chego à conclusão de que toda essa história de "medir e completar se necessário" que todos os fabricantes adotam talvez tenha surgido apenas por motivo de padronização da literatura técnica.

Ao elaborar um procedimento universal que atenderia tanto motos sem radiador de óleo quanto motos com radiador de óleo, em qualquer condição de troca, os fabricantes economizaram uns trocados na hora de publicar seus manuais de proprietário.

Causaram uma dor de cabeça dos diabos para todo mundo que não tem radiador de óleo, mas tiveram um efeito colateral muito útil para eles...

O efeito de recomendar uma quantidade de óleo insuficiente para as motos que não passam por essa situação e que prejudica os motores de quem não faz corretamente o procedimento desnecessariamente confuso.

E isso inclui suas próprias concessionárias, olha só que coisa...

Então, chego à conclusão de que, se errei sobre o escoamento do óleo do radiador porque ele iria sair de qualquer maneira ao final de uma longa espera, não errei quanto a todo o restante.

E não retiro nada do que disse sobre o óleo do motor.

As empresas se beneficiam disso e os proprietários são prejudicados.

Se você quiser trocar o óleo e remover o óleo do radiador, não solte os dutos, é um procedimento que pode trazer mais problemas do que benefício.

Espere no mínimo meia hora depois que o filete de óleo começar a gotejar que o radiador estará drenado.

Em compensação, o motor demorará um tempinho angustiante trabalhando sem óleo até o radiador ser preenchido.

Vale a pena?

Na minha opinião, não.

Mas não tenho moto com radiador de óleo, então essa decisão terá de ser sua.

E nunca se esqueça de medir o nível de óleo fazendo o procedimento correto para completar o nível de óleo, é a única maneira de garantir a lubrificação adequada do motor em qualquer condição de troca.

Um abraço,

Jeff

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O que é descarbonização e flush do motor?

De modo geral, descarbonização é a remoção do carvão que se acumula no motor, portanto o 'flush' também se enquadra nessa categoria, mas não são a mesma coisa conforme explicarei ao longo do texto.

A descarbonização pode ser feita apenas com produtos químicos solventes — sem abrir o motor.

E também por limpeza e lavagem com escova após a remoção e desmontagem do motor durante um reparo de grande monta, como a troca de peças do câmbio ou de serviços no cilindro/pistão

Qual a origem desse carvão?

Carvão é carbono, carvão é o resíduo sólido da queima de materiais orgânicos.

Cumé? Material orgânico dentro do motor?

Sim — como foi dito naquela aula chata de Química em que você estava no facebook com os amigos, toda substância que tem carbono em sua composição é material orgânico.

Gasolina de verdade (não a nossa) é composta exclusivamente por grandes moléculas formadas de carbono + hidrogênio, assim como o óleo lubrificante é feito de moléculas ainda maiores e longas mais aditivos diversos. E é por isso que os lubrificantes são mais densos e viscosos que a gasolina.
Imagem: Wikipedia - Moléculas de gasolina pura (sem álcool) (à esquerda e centro) e um aditivo não usado no Brasil à direita 
Etanol é basicamente C + H em moléculas médias com a inclusão de um átomo de oxigênio em cada uma. 
Imagem: Wikipedia - Molécula de etanol
E celulose idem, mas proporcionalmente com muito mais oxigênio e radicais OH.
Imagem: Wikipedia - Molécula de celulose
Celulose??? Tem madeira dentro do motor???

Yes, tem madeira. Especificamente, cortiça.

Cortiça é a casca de uma árvore, o sobreiro ou corticeira.
Imagens: Pesquisa no google

Os discos de embreagem de motos populares são feitos de cortiça prensada e só aguentam o tranco porque trabalham em banho de óleo.
Imagem: http://www.masada.com.br/disco-de-embreagem-kit-cg125-fan-ml-titan-125-kansas-150-nxr125-bros-scud-p3908/
— Imagem ilustrativa, não conheço nem produto nem fabricante.
Em compensação, patinam todas as vezes que a embreagem é acionada, o que causa calor por atrito.

Calor por tempo prolongado queima a cortiça — embreagens desreguladas queimam e desgastam a cortiça muito rapidamente. Daí a necessidade de manter o cabo da embreagem sempre bem regulado.

Todo material orgânico queimado vira principalmente carvão, gases (nitrogênio, CO e CO2 na forma gasosa e oxigênio e hidrogênio livres ou na forma de chama) e vapor de água.

Sobram outros resíduos de contaminantes como enxofre, fósforo, silício abrasivo, etc. em proporções bem menores.

De onde vem o carvão nos motores?

Há três tipos:

O carvão residual da queima do combustível, o carvão residual da queima do óleo e o carvão residual da queima por atrito dos discos de cortiça da embreagem.

O carvão que não é eliminado pelo escapamento na forma de fuligem acaba se acumulando e formando uma crosta seca sobre a superfície da cabeça do pistão e faces do cabeçote e válvulas da câmara de combustão.
Imagem: Dr. Daniel operando Jezebel

Já o carvão que se deposita sobre a superfície oleada do cilindro se mescla com o óleo e acaba se unindo aos outros dois tipos, todos contaminando o óleo do motor — é por isso que ele fica preto depois de algum tempo de uso.

Lá ele também se junta às partículas de aço, alumínio e bronze resultantes do desgaste normal do motor e essa sopa fica circulando dentro do motor até que as partículas maiores sejam retidas pelo filtro. Ou não. Daí a importância de usar um óleo de viscosidade adequada para minimizar o desgaste do motor.

Essa sopa encorpada de óleo sobre superfícies muito quentes como o interior do cabeçote acaba sendo queimada e forma uma crosta ressecada meio úmida de óleo chamada borra. Daí a importância de não rodar com pouco óleo, ele ajuda a esfriar o cabeçote.

O óleo não totalmente queimado forma uma gosma melequenta que tende a se acumular nos locais de alta temperatura e baixa velocidade de circulação do óleo.

Se a gosma for mais sólida do que melequenta, ela será chamada de laca — geralmente a laca aparece nos dutos de admissão de mistura por evaporação do combustível.
Imagem: Vídeo do Furlani

Quanto mais tempo o óleo permanecer dentro do motor, maior a tendência de ele se decompor e formar borra e gosma. Daí a importância de não obedecer os intervalos de troca absurdos recomendados pelos fabricantes.

Crostas, borras, gosmas e lacas são formas de carbonização do motor, se bem que o termo seja mais utilizado para falar da carbonização seca do interior da câmara de combustão. Falo mais sobre carbonização nesta outra postagem

No vídeo da última postagem você viu que o motor daquela CG 150 tratada em concessionária precisou fazer uma lavagem interna (flush).

Só para comparação, aí vai de novo a foto do motor da Jezebel aos 62 mil km sempre rodando com óleo mineral trocado na hora certa:
Imagem: Foto tirada pelo Daniel quando trocou o câmbio da minha Kansas 150, mais detalhes nesta postagem.

Qual a diferença entre essa lavagem interna e a descarbonização do motor?

Os dois irão retirar o carvão do motor, mas a descarbonização se refere ao carvão acumulado no pistão e câmara de combustão, enquanto a lavagem interna com solvente desengraxante remove o carvão (borra e goma) do cárter, superfície interna do cabeçote e galerias de óleo.

Esse óleo de limpeza com desengraxante precisa ser muito bem removido, então o ideal é não precisar recorrer a esse recurso extremo.

A lavagem interna sempre apresenta o risco de não remover todas as crostas e borras na primeira troca de óleo.

Essas coisas enfraquecidas pela primeira lavagem podem se soltar de repente e circular dentro do motor, vindo a entupir o filtro de óleo, o filtro de tela e principalmente a entrada da bomba de óleo, fazendo o motor se fundir. Daí ser preferível não deixar a borra se formar do que ser obrigado a usar produtos químicos para sua eliminação — mas no caso da moto do vídeo de ontem, não tem outro jeito.  

E o que fazer para que a lavagem interna e a descarbonização não sejam necessárias?

Usar um bom óleo de viscosidade adequada no nível correto (não somente a quantidade insuficiente recomendada) para evitar as borras de óleo.

E usar gasolina aditivada para evitar a carbonização de carburador ou válvula de aceleração e câmara de combustão.

Aí você diz:

Mas o manual diz que não pode usar gasolina aditivada, só normal!!

E eu te digo que isso é balela para você virar freguês de concessionária.

E te digo mais:

A obrigatoriedade de uso de gasolina aditivada em todo o país vem sendo adiada desde 2013 e parece que será a única disponível nas bombas a partir de julho de 2017... 

E aí, comofas, não vai usar mais a moto?

Então é isso.

Trate bem de sua moto, não deixe de fazer as revisões, use bons produtos, não se esqueça de limpar todos os filtros.


Filtro centrífugo da Jezebel fotografado pelo Dr. Daniel
CG e várias dafras usam filtro de óleo do tipo centrífugo que somente podem ser limpos com a abertura da tampa direita do motor... 

Serviço para fazer só em oficina ou tendo um conhecimento razoável de mecânica e ferramentas adequadas.

Tomando esses cuidados básicos e não sendo tapeado, sua moto te proporcionará muita satisfação por longo tempo.

Um abraço,

Jeff

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Vou me aposentar de falar do óleo... segue mais um vídeo autoexplicativo.

O Pedra Veloz leitor velho de guerra, a quem agradeço muito, muito mesmo, encontrou mais um vídeo de Mecânico Honesto.

Ele mostra e explica o estado de um motor de honda CG 150 cujo proprietário não leu o manual (ou se leu, leu por cima) e acreditou na conversa do óleo e não imaginou que ele sumia do cárter (ou se esqueceu de conferir mesmo).

Parece que ele acreditou que o óleo maravilhoso permitia rodar 4 mil km sem se preocupar com o nível nem repor o óleo.

Em uma moto nova a coisa demora um pouco mais para aparecer. Mas em um motor rodado, a coisa vira um vapt-vupt.

Deu no que deu:



Parabéns ao mecânico do canal Duas Roodas (não descobri o nome dele) — merece ganhar muitos clientes por atitudes como essa.

As imagens não ficaram muito evidentes para quem não conhece as peças em estado de novas, mas eu explico.

O que ele quis mostrar é que aquelas peças ou estão muito riscadas ou estão com folgas irrecuperáveis por desgaste excessivo.

Isso não tem jeito, só trocando peças muito caras e que estão à venda somente na concessionária.

O tensor da corrente é feito de plástico que suporta grande quilometragem trabalhando em temperaturas elevadas, mas só até um certo limite, precisará ser trocado em uma revisão preventiva. Talvez aos 50 mil km, não tenho certeza.

Ele se resseca e se desgasta com o uso, mas se ressecará e se desgastará muito mais rápido se o motor trabalhar em temperatura anormal devido ao pouco óleo.

Peças riscadas enfraquecem o motor porque não permitem boa compressão antes da explosão, parte da energia da explosão vaza para o cárter em vez de empurrar o pistão.

Peças com riscos e desgastadas aumentam o atrito interno do motor, roubando energia que iria para as rodas e transformando em calor. 

Mais calor evapora o óleo ainda mais rápido e é por isso que você precisa conferir o nível e repor o óleo cada vez com mais frequência quanto mais rodada for a sua moto.

Fazendo uma economia besta você cairá que nem um pato por não cuidar direito do seu motor.

Sim, economizar míseros 20 reais de óleo pode te custar bem mais do que 1.000 reais em um conserto...

Pode até colocar sua vida e a vida de sua garupa em perigo, porque a quebra de um pistão pode travar o motor junto com a roda traseira ou estourar a carcaça e vazar óleo na frente do pneu, aí é tombo certo.

Segue foto mostrando vários estágios de desgaste do pistão para você visualizar melhor.
Imagem: http://www.laskeyracing.com/shop/breakin.htm — O site da Laskey Racing é especializado em preparação de motores e fornece algumas dicas interessantes para quem gosta de mecânica automotiva.

Os pistões acima mostram o que acontece em um motor funcionando com aquecimento excessivo.
Imagem: http://xlforum.net/vbportal/modules/Jig/index.php

A saia (parte de baixo do pistão) se dilata mais que o esperado e acaba atritando com a parede do cilindro, deixando riscada sua superfície perfeitamente usinada.

Nem sempre dá para retificar ou trocar só a camisa (o revestimento interno do bloco do cilindro — nem todo motor usa camisas substituíveis). 

Aí a bobeira fica ainda mais cara.

Essa parede do cilindro originalmente não apresenta nenhum risco vertical, é quase espelhada.

Todo motor com o uso acaba riscando o cilindro, e o principal causador disso são as partículas em suspensão no óleo usado presas aos anéis do pistão. Daí a necessidade de trocar com boa frequência para não deixar acumular uma quantidade excessiva de sujeira dentro do motor.

Mas o aquecimento que chega a dilatar a saia do pistão acelera muito esse processo, porque as partículas presas entre o pistão e o cilindro e a sua própria superfície em contato direto atuarão como uma lixa a quase 10 mil ciclos por minuto.

E o aquecimento adicional resultante desse atrito aumentará ainda mais a temperatura, podendo fazer o pistão se derreter, o famoso "fundir o motor".

Riscos verticais permitem a passagem de óleo do cárter para a câmara de combustão onde ele é queimado, vira fumaça e desaparece do cárter.

O processo de sumiço do óleo é cada vez mais rápido quanto maior a quilometragem da moto. E é por isso que a garantia dura apenas o tempo suficiente para esse desgaste e consumo excessivo de óleo não se tornarem evidentes e chegarem a dar problema. 

Normalmente dá certo, os pipocos estouram só na mão dos clientes. Mas aí você junta um óleo 10W-30, concessionária colocando só o mínimo de óleo e proprietários levados a pensar que o óleo é mágico para durar 4, 5 ou 10 mil km, além de uma picaretagenzinha nova que descobri e que estou investigando para uma nova postagem suculenta, e você tem o quadro atual de clientes chutando moto na porta das concessionárias...

Note que o site da Laskey informa que os danos nos pistões mostrados na foto ocorreram por mistura excessivamente pobre (pouca gasolina em proporção ao ar aspirado pelo motor), o que provoca aquecimento e dilatação excessivos do motor.

Mas o aquecimento e dilatação excessivos com sintomas de desagste praticamente idênticos também ocorrem quando o óleo não lubrifica adequadamente o cilindro.

E ele não cumpre sua função ou porque está muito fino por atingir uma temperatura mais elevada que a prevista, ou porque já começou com uma viscosidade muito baixa... 

Mesmo que a mistura esteja bem proporcionada, problemas ocorrem por causa do uso de pouco óleo no cárter (dificultando o resfriamento do motor) e do uso de um óleo de uma viscosidade baixa que diminuirá ainda mais porque o motor está se aquecendo mais do que deveria...

A soma dessas duas é a pior condição possível para o motor.

E é isso que você, a concessionária ou a oficina fazem quando colocam apenas a quantidade recomendada pelo fabricante sem atentar para o nível do óleo e você não descobre por fazer a medição do jeito errado amplamente divulgada que eu vivo denunciando.

Mesma coisa quando não repõe o óleo consumido porque acredita que está usando um óleo mágico supermegapower que permite rodar metade do Brasil sem se preocupar com o nível dele. Afinal, o vendedor falou que valia a pena pagar mais caro porque o novo óleo oferece a melhor proteção para garantir a longa vida do motor, não falou?

Não caia nessa, a propaganda diz uma coisa e a realidade é outra.

Se você não cuidar direito da sua moto fiscalizando o trabalho das concessionárias desde a entrega da moto e em todas as revisões, ou da oficina a cada troca de óleo, e se não inspecionar e repor o óleo consumido conforme necessário, você dança e dança bonito.

PS: A postagem sobre descarbonização, flush e eliminação de borra foi transferida para amanhã devido a este vídeo enviado pelo Pedra Veloz. Agradeçam a ele!

Um abraço,

Jeff

domingo, 4 de dezembro de 2016

Depois deste vídeo, não preciso falar mais nada sobre o óleo da moto nunca mais...

Mas bah, me conheço, sei que não vou parar...

Este vídeo me foi indicado pelo leitor Walter Vecchi, a quem agradeço imensamente!

Assista este vídeo do Furlani e veja (e ouça) a confirmação de tudo que sempre foi dito aqui no blog!

A tampa do cabeçote desta honda CG 150 sempre revisada em concessionária é aberta e, para minha alegria (e tristeza do dono), olha só que coisa pavorosa de se ver:



Parabéns ao Furlani por mais esta iniciativa de denunciar essa prática danosa das montadoras que vai contra todos os princípios éticos pelas quais elas deveriam se pautar.

É por adotar esse óleo inadequado, esses prazos de troca absurdamente longos e permitir que suas concessionárias entreguem as motos aos proprietários com menos óleo do que seus engenheiros recomendam — enquanto posa de dedicada a 'oferecer o melhor óleo para prolongar a vida útil do motor' — que a honda deixou de ser Honda.

(E não se iluda: yamaha, suzuki, kawasaki, bmw, triumph, traxx, kasinski... todas elas perderam as maiúsculas faz tempo. A dafra nunca teve.)

Viu que beleza que fica o motor usando apenas 1 litro do óleo semissintético mágico 10W-30 e rodando os 4 mil km do intervalo de troca recomendado pela fábrica?

(E olha que semissintético resiste melhor à temperatura do que o óleo mineral, hein?)

Ouviu o que o Furlani disse e eu concordo 100%?

Que o interesse dos fabricantes está em você gastar o seu dinheiro comprando peças e fazendo serviços com eles?

Acabando logo com o motor para você comprar outra motocicleta nova?

Aquele cara dizendo isso no vídeo não sou eu não...

É muito bom saber que não estou sozinho nessa briga.

Além do Furlani e do Madeira, Mecânicos Profissionais, vários leitores também estão ajudando a divulgar essas picaretagens do mercado e abastecendo o blog com novas informações!

Nada se iguala à minha alegria neste momento!

Agora fico só imaginando a cara de bocoió daquele pessoal que sempre defendeu com unhas e dentes a honda e demais fabricantes...

Vá nessa onda de acreditar piamente nas montadoras e sua moto ficará do mesmo jeito que essa aí...

Eu queria ter gravado a reação dos mecânicos da concessionária dafra que fizeram a revisão de 6 mil km da minha Kansas 150 — a única que fiz depois de comprar a moto.

Eu comprei a Jezebel com pouco mais de 3 mil km do casal Lobo & Loba, que sempre a trataram com mais 200 ml de óleo do que o fabricante manda. Fui buscar em Volta Redonda (ela é carioca, ela é carioca... basta o jeitinho dela andar...)

Foi nessa primeira viagem que descobrimos que ela precisava era de 400 ml adicionais ao 1 litro falado no manual, mas a baixa quilometragem não chegou a comprometer significativamente o motor.

Naquela revisão de 6 mil km, os mecânicos ficaram admirados que o motor da Jezebel estava limpo, não tinha borra...

Eles nunca tinham visto um motor assim lá na concessionária...

Detalhe: 

Jezebel sempre usou a quantidade correta de óleo mineral 20W-50 trocado de mil em mil km.

Pois é...

Depois disso a motinho já morou em Santo André, Biritiba-Mirim (SP) e São José (SC).

Comigo ela conheceu Rio de Janeiro (de novo), Ilhabela, Foz do Iguaçu e Puerto Iguazu, Paraty, Florianópolis, São Joaquim, Imbituba, Novo Horizonte, Joanópolis, Águas de São Pedro, Americana, Sumaré, Itupeva, Bragança Paulista, Campinas, Santa Bárbara do Oeste, Serra Negra, fora outras, e continua lépida e fagueira. Não foi graças à dafra.

Hoje Jezebel está na casa dos 95 mil km com cabeçote, pistão e cilindro originais (só precisei trocar o câmbio porque extrapolei o peso máximo em viagens várias vezes).

Sabe porque a CG do vídeo tem tanta borra e aquele vazamento pela tampa do cabeçote?

Porque o aquecimento excessivo devido à pouca quantidade de óleo deforma a guarnição de borracha... além de queimar o óleo e formar borra.

Borra é óleo queimado. E o óleo queima porque o cabeçote se aquece muito, e o cabeçote se aquece demais quando o motor trabalha com pouco óleo e/ou óleo de viscosidade inadequada.

Já minha moto não vaza óleo pela tampa. Nem junta borra.

[Espaço reservado para a foto que alguém vai tirar do cabeçote da minha moto porque eu não tenho câmera fotográfica nem smartphone graças a Deus e ao meu vizinho malandro que fez a limpa do apartamento lá em São José.]

[Enquanto essa foto atual não vem, olha o cabeçote da Jezebel aberto quando ela tinha aproximadamente 62 mil km (55.907 no velocímetro + uns 6 mil que rodou sem cabo) o Daniel trocou o câmbio. Borra quase inexistente e nenhuma crosta]:
Imagem: Feita pelo Daniel na época da desmontagem para troca do câmbio. Outros detalhes na postagem sobre descarbonização do motor de 11/092014

Se o motor dessa honda CG 150 usasse 1,2 litro de óleo a cada troca, se usasse um óleo de viscosidade adequada à temperatura daquela região, e se o óleo consumido fosse reposto a cada 200 ml consumidos para permanecer dentro da faixa de segurança da vareta medidora...

Se fizesse tudo isso, o vídeo do Furlani seria para elogiar o estado maravilhoso do motor e não para mostrar toda essa borraiada.

Fiquei muito contente vendo esse vídeo, você nota, né?

E perdoe minha atitude mesquinha e um pouco vingativa, mas merecidamente curtida:

Aproveito para dizer para aquele fã de carteirinha dos fabricantes que ainda duvida deste blogueiro e não se convence nem mesmo vendo esse vídeo:

Continue a acreditar cegamente nos fabricantes, continue a colocar apenas a quantidade recomendada sem atentar para a complementação, continue a fazer a troca a cada 3 ou 4 ou 5 ou 10 mil quilômetros... 

Continue substituindo o filtro de óleo a cada trocentas trocas a cada trocentos mil km...

A moto é sua, você merece, seja feliz. Hehehehe

Um abraço a todos os leitores, menos a esses aí que eu falei por último,

Jeff :)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Youtubers ofendidos que não reconhecem seus erros

A gente passa alguns dias sem poder entrar na internet e quando volta encontra uma dúzia de comentários irritados do autor do vídeo da troca de óleo que falei outro dia.

Postei todos.
Bom, vamos lá:

Caro Rengaf 2 rodas:

Eu não te expus, eu somente postei o seu vídeo e apontei os problemas que podem surgir por causa do seu vídeo e de outros similares ao seu.

"Postei sem a sua ciência"? 

"Me processar porque peguei o "seu" vídeo"?


Vou te explicar algumas coisas básicas.

Você postou seu vídeo no youtube usando a licença padrão do youtube:
Ao fazer isso, você abriu mão da propriedade do vídeo, ele passou a ser propriedade do google, que é o dono do youtube.

Em troca, o google está te pagando uns trocados proporcionais ao número de visualizações que o "seu" vídeo recebe.

Conforme essa licença que você não leu, qualquer usuário do serviço do youtube pode reproduzir / compartilhar (share) o "seu" vídeo — desde que não pratique nada condenável perante a lei e as regras de uso do youtube.

Visualizações do "seu" vídeo no meu blog entram na sua conta, são contabilizadas para você.

Sua irritação não faz sentido, você está ganhando views com o meu blog, está reclamando do quê?

De ter sido "exposto"?

Desculpe, mas... 

Foi você quem tomou a decisão de se expor publicando um vídeo com problemas que você não percebeu.

Em vez de reclamar, a atitude adulta seria reconhecer o que está errado e argumentar educadamente defendendo seu ponto de vista.

Idealmente, providenciar um novo vídeo mais rico com o conteúdo adquirido nessa troca de ideias.

Desculpe novamente, estou pedindo demais.

"O cara (sem noção doido pra leva(r) um processo) vem fala(r) que toca(r) no óleo dá câncer."

Não sou eu quem fala, é a honda e mais uma pá de fabricantes quem fala isso em todos os seus manuais técnicos:
Fonte: Qualquer manual de serviços da honda e de outros fabricantes

Como você vê, não sou sem noção e nem sou doido.

Apenas desconhecia que você não acredita que o contato frequente com óleo usado pode causar câncer de pele.

De qualquer forma, desculpe novamente por te avisar. 

Por mim você pode até nadar em óleo usado, não estou nem aí, não é problema meu — só me preocupo em levar conhecimento aos meus leitores.

Naquela postagem, em nenhum momento eu me referi a você ou dei a entender que você seja um "babaca".

Você entendeu dessa maneira.

Quanta irritação injustificada. 

Você precisa melhorar sua autoestima, rapaz.

Por aí falam coisa muito pior deste blog e explicitamente a meu respeito e não me incomodo — estou com a minha consciência tranquila porque não sou eu quem está fazendo um papel lastimável.

Se me apontam algum erro real meu, admito e publico retratação aqui no blog.

Caso você não tenha algum argumento para usar além desse 'eu faço e não dá problema', sinto muito.

Você fazer e não dar problema não quer dizer que outras pessoas não terão problemas sérios por conta do que você não considerou ao publicar o seu vídeo.

Aproveitando, deixa eu falar:

Seu vídeo tem mais um problema grave que não comentei na outra postagem, mas fui lembrado pelo leitor Allt:

Ao esvaziar o radiador, o motor da moto de quem fizer esse procedimento, mesmo que faça tudo certo e não perca nenhum o-ring, irá funcionar por muito tempo a seco enquanto o filtro e o radiador são preeenchidos de óleo.

E nunca é demais lembrar, trabalhará com menos óleo do que o recomendado pelo fabricante porque você não leu o manual do proprietário nem fez o procedimento da maneira correta — não ligou e desligou o motor para medir o nível após a troca.

Não completou o óleo até atingir o nível máximo recomendado pelo fabricante.

Ao recomendar colocar apenas a quantidade da carcaça, você errou feio duas vezes.

São duas coisas que só servem para abreviar a vida útil do motor.

Mas como você disse, Rengaf 2 rodas, a moto é sua e você faz o que quiser com ela.

Por mim você pode continuar fazendo o que você quiser com a sua moto até o dia em que isso te der problema.

Só não induza outras pessoas a fazer coisas erradas.

Quer ensinar alguém, tenha a responsabilidade de publicar um vídeo no mínimo correto e respeitando o procedimento básico determinado pelo fabricante.

Quer enfatizar a "grande sacada" de esvaziar os dutos e o radiador de óleo?

Tenha a responsabilidade de atentar para as consequências e pelo menos alertar àqueles que seguirão suas dicas sobre os riscos envolvidos e como evitá-los.

Por exemplo, oriente sua audiência sobre a necessidade de colocar mais óleo do que o recomendado na carcaça — afinal, é você quem está apontando o dedo sujo de óleo para o número ali gravado.

Oriente sua audiência sobre a necessidade de medir o nível de óleo da maneira correta para que eles não entrem numa fria por tua culpa — afinal, foi ideia sua postar um vídeo orientando o pessoal a fazer isso.

"Cuidado com o processo nas costa(s)"?

Você fez o que fez, postou um procedimento totalmente problemático em desacordo com o fabricante da motocicleta — e vem no meu blog me chamar de "sem noção doido pra leva(r) processo"...

E eu é que tenho de ter cuidado para não ser processado?

Não tenho o menor receio.

Não fui eu quem te expôs, foi você mesmo no "seu" vídeo e em uma dúzia de comentários aqui no meu blog. 

Mais fácil é alguém te processar por recomendar 1.350 ml de óleo no motor depois de fazer um procedimento de esvaziamento do radiador de óleo onde essa quantidade não será reposta.

Sabe, ao estimular dezenas de milhares de pessoas a fazer um procedimento de troca de óleo incorreto e desautorizado pela fábrica que potencialmente irá danificar os motores, você está assumindo essa responsabilidade.

Um bom conselho:

Tenha cuidado com os processos nas costas.

Seja feliz,

Jefferson

Aviso aos leitores — novo email para contato

Olá, pessoal!

Meio afastado por estes dias, mas está tudo bem.

Bom, tudo bem, daquele jeito, né?

Volto a postar quando for possível...

Mas o motivo de eu estar aqui hoje é que meu gmail está com a caixa de entrada entupida e não consigo livrar espaço.

Apaguei uma tonelada de mensagens com anexos e continua bloqueada, então quem quiser se comunicar comigo, por favor, use o novo email:

jefferson.tradutor@hotmail.com

Desculpe o inconveniente, estou atualizando também naquelas postagens onde eu menciono o email.

Um abraço,

Jeff