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terça-feira, 15 de agosto de 2017

Novas informações sobre o acidente que matou a dublê de Deadpool 2

Complementando a postagem de ontem:

Novas imagens dão novas pistas para tentar entender o acidente que matou a dublê durante a filmagem de Deadpool 2.

Esta foto mostra a roda dianteira totalmente quebrada com o cubo, disco de freio e raios separados do aro e pneu — algo improvável de ter acontecido somente com o impacto contra a guia ou a parede de vidro do prédio:
Imagem e reportagem: https://www.thestar.com/entertainment/movies/2017/08/14/stunt-driver-dies-after-crash-during-deadpool-2-filming.html

Talvez a roda tenha se quebrado na última vez em que ela desceu as escadarias, causando a perda de controle.

Novas informações relatam que ela havia ensaiado a cena com a moto pelo dia inteiro na véspera.

Motos não são projetadas para descer escadarias, ainda mais várias vezes em sequência.

Submeter uma peça metálica a esforços repetitivos, ainda mais esforços não previstos no projeto, pode causar trincas por fadiga do material — é por isso que um arame dobrado várias vezes acaba se quebrando com uma força mínima.

Este vídeo mostra como isso acontece e o primeiro exemplo apresentado é justamente o de uma bicicleta — motocicleta sem motor — descendo uma escadaria:

Clique na engrenagenzinha e use a opção Subtitles/CC Auto-translate Portuguese para legendas em nosso idioma ou em qualquer outro da lista de opções. Crack = fissura ou trinca.

Ficar descendo degraus por um dia inteiro pode ter provocado trincas por fadiga nos raios da roda da moto, e como você viu no vídeo aos 05:29essas trincas são muito difíceis de ver a olho nu — até causarem a ruptura completa.

Se a roda realmente se quebrou antes da perda de controle, ela causou uma oscilação violenta do guidão, possivelmente impedindo que a garota acionasse os comandos da moto.

Mesmo que ela conseguisse acionar os comandos, o freio dianteiro estava totalmente inoperante, e somente o traseiro não impediria a moto de avançar com o acelerador travado aberto, ainda mais sem apoio da embreagem.

O desvio de pedestres descrito pela testemunha pode ter sido mera coincidência ou conclusão errada de sua parte, algo muito comum em acidentes.

Resta esclarecer o motivo de o acelerador travar aberto se a dublê não estava conseguindo acionar os comandos...

Sem acionamento intencional, a mola da manopla sempre retorna o acelerador para a posição de marcha lenta.

Ou pelo menos, deveria retornar...

Teria sido a quebra da roda que causou o disparo do acelerador?

Se o sensor de velocidade daquela moto está instalado na roda dianteira, e é o mesmo sensor de velocidade usado pelo sistema de frenagem ABS, a informação enviada para a ECU com a roda quebrada era de que a moto estava parada.

O aro da roda dianteira girava louco, mas o cubo da roda e o disco do sensor de velocidade estavam parados, desconectados do aro e pneu.

O ECM pode ter entendido que a moto estava parada com o comando da manopla do acelerador e da marcha da moto em posição diferente da que seria usada para um comando de parada...

A lógica eletrônica pode ter interpretado essa discordância de informações como algo a ser compensado aumentando a rotação do motor — tornando a dublê passageira de uma moto incontrolável e com vontade própria.

Até onde sei, é um cenário possível, a menos que o sensor de velocidade usado pela lógica eletrônica não seja o da roda dianteira.

Se este cenário for correto, o fato grave é que um evento menor e mais fácil de acontecer, como a simples desconexão ou ruptura da fiação do sensor de velocidade em uma moto equipada com a mesma lógica eletrônica, poderá causar o disparo das rotações do motor — levando à mesma sequência de eventos.

Somente uma perícia detalhada permitirá saber o que realmente aconteceu.

Se em breve aparecer um recall para recalibração do ECM / ECU das motos ducati, será uma boa pista.

Agora, independente da causa:

Certamente o que poderia ter salvado a vida da motociclista seria o uso de um capacete — as cenas de ação eram filmadas sem proteção, como é praxe nos filmes:
Imagem: https://omelete.uol.com.br/filmes/noticia/deadpool-2-criador-compara-o-filme-a-a-hora-do-rush/371981/ Esta é a atriz Zazie Beetz em uma cena sem risco, não a dublê que morreu.

Daí no impacto contra o prédio a dublê foi arremessada de cabeça contra a parede de vidro laminado feito para não se quebrar com facilidade.

O capacete provavelmente teria absorvido suficientemente o impacto para que ela sobrevivesse, talvez mesmo sem sequelas.

Infelizmente, não foi o que aconteceu — tudo acontece muito rápido em acidentes de moto, e o capacete é sua última defesa.

Capacete é fundamental, e capacete fechado é essencial.

Imagem e reportagem: https://www.jpnews.com.br/policia/motociclista-bate-na-traseira-de-carro-e-fica-ferida/100758/ 

Nunca deixe de usar o capacete, use o capacete sempre bem afivelado, e não caia no conto do capacete aberto bonitinho, mas ineficaz para sua proteção.

Um abraço,
Jeff

PS: O blogspot do google continua mudando a formatação cada vez que eu salvo e conforme o que dá na telha maluca dele, perdi horas tentando consertar e desisti, sinto muito, vai assim mesmo.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Travamento do acelerador

Hoje aconteceu um acidente de moto fatal durante a filmagem de Deadpool 2.

A reportagem do g1 não entra em detalhes, mas o jornal local da cidade onde a filmagem está ocorrendo fornece informações importantes:
Imagem e reportagem: http://vancouversun.com/news/local-news/deadpool-2-stunt-person-injured-after-motorcycle-crashes-into-shaw-tower

Uma testemunha relata que estava vendo ensaios da dublê para a cena:

"Ela pilotava a motocicleta descendo uma escadaria do centro de convenções e parava quando chegava à rua".

"Quando o acidente aconteceu, a pilota pareceu acelerar, atravessou a rua e desviou para evitar pedestres antes de desaparecer de vista."

"Ela perdeu o controle realmente rápido. Aconteceu em uma fração de segundo. Ela estava em aceleração total e há um prédio ali [em frente]".

O acidente das filmagens de Deadpool 2 pode acontecer na sua moto?

Sim, pode.

Aparentemente, ou ela perdeu o acesso aos controles ou o acelerador travou totalmente aberto.

Mas a testemunha narra que ela desviou dos pedestres, então estava com as mãos no guidão — o suspeito passa a ser uma falha mecânica.


O acelerador tradicional é uma válvula borboleta que controla a passagem de ar para o motor, e essa válvula é acionada por um ou dois cabos presos à manopla do guidão (ilustração à esquerda). 
Imagem: http://www.ebay.co.uk/gds/Why-should-i-use-throttle-controller-/10000000204507767/g.html — Não encontrei uma imagem para moto, mas faça de conta que o acelerador do carro é a manopla do guidão e o pé é sua mão, ok?
Em motos de alta tecnologia, a válvula é controlada eletronicamente por um motor de passos controlado pelo módulo eletrônico (ECM) (ilustração à direita).
O ECM interpreta os impulsos elétricos de um potenciômetro ou leitor digital na manopla do guidão.
Se alguma coisa impedir o retorno da válvula, ou se houver um erro de leitura das informações da manopla, a válvula ficará travada na posição totalmente aberta com aceleração máxima — a moto ficará muito difícil de controlar instantaneamente.
Um cabo de acelerador comum desfiado pode emperrar dentro da capa do cabo, impedindo o retorno da válvula mesmo que a manopla do acelerador esteja em posição de marcha lenta.
Um emperramento da válvula dentro do carburador ou da válvula de aceleração (injeção eletrônica) por rebarba de fabricação também pode ocorrer.
A possibilidade de travamento aumenta em motos multicilindros com vários carburadores ou válvulas de aceleração, que possuem uma articulação mecânica com vários pontos que podem travar por falta de limpeza, lubrificação ou desgaste mecânico.
Evitar o emperramento do cabo é mais um bom motivo para fazer a lubrificação periódica e a troca preventiva do cabo do acelerador.
Motos modernas com injeção eletrônica possuem lógica de programação para lidar com situações como essa de emperramento do cabo ou travamento da válvula.
Em caso de emperramento do cabo ou da válvula de aceleração, a lógica limita a rotação do motor em um valor determinado.
No entanto, essa programação visa apenas a impedir que o motor estoure por excesso de rotação.
A lógica eletrônica é incapaz de impedir um acidente como o da filmagem porque a moto não tem como saber se a aceleração que você estabeleceu é intencional, e se é adequada ou não para a situação em que você se encontra.
A única coisa que poderia ter impedido ou minimizado as consequências do acidente seria a reação rápida da pilota acionando a embreagem.
Ao notar o acelerador travado, acione imediatamente a embreagem e desligue o motor no corta-corrente ou chave de ignição para retomar o controle da moto.
Tentar parar a moto usando os freios contra a potência total do motor é impossível — os freios não têm força suficiente para vencer a força do motor se você não acionar a embreagem.
Será que a moça que morreu não sabia dessa técnica tão básica? Afinal, ela não era uma novata...
Bom, aí é que está.
Será que a embreagem atuou quando ela acionou (se é que ela acionou)?
As motos ducati atuais (e não só as ducati) incorporam uma série de automações de acelerador, embreagem, troca de marchas e controle da transmissão de potência à roda traseira.
Teria a automação de funções cometido um erro de interpretação que se mostrou fatal em uma fração de segundos?
Teria a ECU desobedecido o comando de atuação da embreagem, ou a embreagem teria falhado de alguma forma, se é que foi acionada?
Receio que nunca descobriremos o que ocorreu de verdade neste acidente, essa informação jamais se tornará pública.
Mas tenho para mim que motos já são suficientemente traiçoeiras mesmo não contando com automações de funções que podem falhar quando mais se precisa delas.
Um abraço,
Jeff