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quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O festival de recalls automotivos que assola o Brasil

Você pode até ficar surpreso (OHHH!!!), mas não precisamos buscar exemplos nos EUA ou no resto do mundo para falar de recall. 

Praticamente toda semana sai uma notícia nova na mídia tupiniquim.

Estes dois recalls aí embaixo são bem atuais.

São os mais recentes por falha de projeto. Até o momento desta publicação.


Já o recall por risco de incêndio dos hyundai HB 20 é do penúltimo dia do ano passado, então vou contar como sendo deste ano. 
Imagem e divulgação: http://g1.globo.com/carros/noticia/2016/12/hyundai-hb20-e-chamado-para-recall-por-risco-de-incendio.html

É bem capaz de ter passado batido no meio das festas e férias de ano novo. 

Por que será que lembrei do recall dos gm Fiero na véspera das festas natalinas? 

Ou do recall das Indian no finalzinho do ano passado?

Pois é, que coincidência, né? 

Defeitos graves parece que preferem ser comunicados ao público em épocas de festa...

E enquanto revisava a postagem tive que atualizar com mais este recall aqui:

Veja que não é um daqueles recalls semanais por airbag assassino que você vê todo santo dia! 

O caso da mercedes-benz é uma falha de programação do módulo eletrônico.

A central eletrônica não se entende com um sensor e o airbag pode deixar de funcionar na hora da pancada... Será que lançaram o carro sem testar o suficiente essa bagaça?

E falando em airbag, não posso deixar de comentar os recalls semanais por "airbag mortal" que atingem todas as montadoras...

Afinal, é apenasmente o maior recall da história mundial e quiçá da galáxia depois daquele caso do duto de ventilação da primeira estrela da morte.
A segunda e a terceira não tiveram recall porque uma foi o Palpatine que não fez o amaciamento e a outra foi vacilo da capitã Phasma.

Afinal, são cinquenta e três milhões de veículos entre carros e motos (Gold Wing, para variar) no mundo todo...

Lendo os jornais você pensa que a culpa é da takata, que fabricou os airbags, e as montadoras não tiveram participação nisso, né?

Errou:
Reportagem: 

Olha a gm aí de novo, geeente!

Esse caso da takata merece uma postagem exclusiva... está a caminho, mas não agora.

A atitude que resultou no escândalo da takata é um caso muito parecido com o que ocorreu com a firestone e os pneus do ford Explorer que eu comentei em outra postagem.


Outra montadora que cometeu os mesmos erros que uma montadora de motos foi a volkswagen.

Ela teve o "mérito" de adotar o famoso óleo sintético de viscosidade inferior à recomendada para a temperatura do Brasil antes da honda. 

Mas já falei sobre isso na postagem Olha só quem se ferrou com óleo sintético menos viscoso!, então não vou entrar no assunto de novo. Só para ilustrar:

E a vw não poderia estar de fora da lista de recalls nacionais de veículos recém lançados...

Não é de hoje que a vw — e as outras montadoras — dão um tiro no pé — dos consumidores — e saem de cena de fininho, assobiando com as mãos nos bolsos.

É que estou falando de recall aqui no Brasil, mas procure por recall vw fire (fogo, incêndio) no google que você encontra casos nos EUA em 2008, em 2010em 2011, um recall voluntário em 2014, em 2015 e dois recalls obrigatórios em 2016, sendo um em abril e outro em outubro.

Não resisti... esse modelo veio para o Brasil também.

O vw Passat americano não tem uma fama muito boa lá nos States — aliás, a vw coleciona recalls por lá — assim como ford, gm....

A fiat não podia ficar de fora tanto lá como aqui. 

Aliás, o que tem de recall da fiat principalmente por causa dos carrões fabricados nos EUA pela antiga chrysler não é brincadeira... são muitos e muitos. 

Vou comentar somente este, a tampa estética do motor (aquela cobertura colocada embaixo do capô para não permitir que o proprietário identifique pequenos problemas de vazamento de fluidos ou mau contato elétrico e seja obrigado a recorrer à concessionária) se solta e encosta no catalisador, derrete e pega fogo... custava ter feito a coisa bem feita? Sim, custaria uns 20 reais a mais...

Nem vou falar do problema do câmbio automatizado da fiat que afetou quase toda a linha... quanto mais detalhes tecnológicos, maiores as chances de falha.

Para que um sistema automático funcione, TODOS os componentes precisam estar funcionando perfeitamente — basta que uma grampola pife para criar uma situação potencialmente muito grave a 100 km/h. Essa é minha bronca com a automação de coisas que não precisariam ser automatizadas.

O mesmo problema de fragilidade de material que vimos no recall do eixo traseiro lá de cima acontece também com os Grand Siena e Fiorino da fiat...
Imagem e divulgação: http://g1.globo.com/carros/noticia/2015/07/fiat-convoca-recall-para-62-mil-unidades-de-grand-siena-e-fiorino.html

Por filosofia de projeto prevendo economia de material e fator de segurança inadequado no projeto, a base da coluna de direção pode trincar e se soltar — e você fica com o volante na mão que nem um bobão. Por pouco tempo, dependendo da velocidade o sofrimento e o arrependimento acabam rápido.

renault, ainda não falei da renault, renault também pode perder a direção...
Imagem e divulgação: http://www.car.blog.br/2016/01/recall-renault-sandero-e-logan-podem.html

Outra fragilidade de componente que pode se romper e te deixar com o volante na mão.

Já imaginou que legal, você no meio da rodovia, vem a curva, você gira o volante e o carro segue reto?

Para não ficar atrás, os peugeot podem perder o servofreio...
Reportagem: http://revistaautoesporte.globo.com/Noticias/noticia/2016/09/peugeot-convoca-recall-dos-modelos-308-e-408-por-falha-no-sistema-de-freios.html

Aí você calcula a força no freio para parar antes do problema, descobre que o pedal ficou duro e o carro não está parando como devia e enche a lata do carro na frente.

Tem que pagar o prejuízo do outro cara e ainda brigar para ser indenizado porque não há prova de que você não foi imprudente...

Carro perdendo o volante, carro perdendo freio... 

Depois falam que motocicleta é perigosa... ops, esqueci das motos que também perdem o freio.

Ainda falta falar das montadoras de carros japonesas... mas o que eu encontrei é tão interessante que pede postagem especial.

Mas eu cansei de escrever por enquanto e você cansou de ler.

É interessante notar como a percepção de que a qualidade vem caindo em níveis assustadores a cada ano já existia em 2014.

Naquele ano o blogueiro Thiago Padilha já se assustava com a quantidade crescente de recalls e chegava às mesmas conclusões...
Blog Carro para usar: http://carroparausar.blogspot.com.br/2014/01/recall-o-que-era-excecao-esta-virando.html

E dava uma lista de exemplos.

Compare os casos de 2014 com as listas mais recentes para ver como a coisa piorou muito:

Aqui estão os links para as reportagens do g1 com a lista de todos os recalls de automóveis nacionais de 2015 e a lista de todos os recalls de carros nacionais de 2016 — verifique o show de horrores você mesmo.


E uma pesquisa em 2017 prova que o volume de recalls aumenta de um ano para outro...


Cada vez mais as empresas erram, se precipitam e lançam máquinas e equipamentos sem um projeto adequado, sem testar devidamente, sem tomar os devidos cuidados na produção, sem monitorar devidamente a qualidade.

Tudo isso para economizar míseras merrecas em cada unidade — e/ou induzir o proprietário a trocar rápido de modelo.

Mas hoje va
mos parar por aqui.

Na postagem de amanhã vou voltar a falar de coisas que a gente trata normalmente aqui no blog — recalls mundiais de motocicletas de todas as marcas.

Tem cada recall por motivo esdrúxulo e mortal que você não acredita...

Até lá,

Jeff

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Os erros 'bobos' das montadoras que ameaçam vidas

Não é mesmo incrível que tantos fabricantes de carros e motos cometam erros tão 'bobos' como esses relatados desde a semana passada?

Até parece que eles não pensam para lançar um produto novo no mercado, né?

Você corre o risco de comprar na maior inocência um carro (ou motocicleta) novo em folha equipado com uma falha grave de projeto ou erro idiota de fabricação, como vimos nas postagens anteriores.

Ou então — acredite se puder — equipado com uma inovação tecnológica de segurança que é uma armadilha mortal.
Imagem: http://g1.globo.com/carros/noticia/2016/04/chinesa-geely-interrompe-operacoes-no-brasil.html

A geely ficou pouco tempo no mercado brasileiro, vendeu apenas 1.000 carros dos modelos EC7 e GC2.

Não sei se o modelo sedã EC7 vendido aqui já contava com esse "recurso de segurança" jéniau bolado lá na China:

Alguém achou que seria uma boa ideia adicionar um recurso de segurança "inteligente" chamado BMBS.

BMBS quer dizer Blow-out Monitoring and Brake System, sistema de monitoramento de estouro (de pneus) e freio. Hummm... deveria ser braking, frenagem.

Caso um borrachudo estoure (algo que deve ser comum lá na terra dele), o BMBS aciona os freios automaticamente sem ação do motorista!

Você compra um carro sem saber que era dotado de um recurso "inteligente" — que você nem teve chance de dizer que não queria, porque o modelo é completo e o BMBS era "item de série".

Imaginou a стая попугаев lá na Dutra, BR-116, BR-101?

Você a 100 km/h, o pneu se esvazia e seu carro tem a péssima ideia de estancar na frente de um volvão bitrem carregado... 
Imagem e reportagem (não foi um geely): http://ong-alerta.blogspot.com.br/2010_07_01_archive.html — A propósito, acabei de descobrir que a geely comprou a divisão de automóveis da volvo que já pertencia à ford... bizarro.

Frear quando um pneu estoura é a PIOR coisa — seguir em linha reta diminuindo lentamente a velocidade, ir para o acostamento com suavidade e parar em segurança seria muito mais adequado...

E no Brasil tem mais uma particularidade: 
Reportagem: http://tomribeiro.blog.br/bandidos-colocam-pregos-em-laranjas-para-furar-pneus-de-veiculos-nas-rodovias/

A bandidagem fura teus pneus para te obrigar a parar e o teu carro entrega o jogo...

Inovações impensadas perigosas e falhas graves de projeto e execução ocorrem tanto nas pequenas quanto nas grandes montadoras.

Nem a mercedes benz — NEM A MERCEDES-BENZ — escapa dessa lista.

Conhece os carros da estrela de três pontas com chicotes de fiação elétrica biodegradáveis?
Imagem e reportagem: http://jalopnik.com/5570865/11-terrible-automotive-engineering-decisions/

Aprovaram uma lei lá na Alemanha no final do milênio passado de que os carros teriam de usar uma porcentagem de materiais biodegradáveis para salvar as foquinhas o planeta.

Os engenheiros da m-b tomaram uma decisão muito conveniente:


Fios elétricos
Fios elétricos com isolação plástica biodegradável — o que poderia dar errado?

Eles especificaram fios com capas de plástico que apodrecem naturalmente com o tempo, olha que tecnologia maravilhosa!

Passa o tempo, tipo uns dez anos e aquilo que impedia os fios de encostarem um no outro ou onde não devem já virou cocô e pum de bactéria. Gás metano (pum) não é um poluente e não gera efeito estufa, magina, quiéisso....

Você todo pimpão no seu mercedão seminovo e começa a pipocar curto-circuito de fio com fio e de fio com a lataria em tudo que é lugar, pifando uma hora uma coisa, outra hora outra. Haja fusível, fita isolante e extintor de incêndio.

Aí perde o T de ter um carro com menos de 10 anos mais bichado que o fuca bala do vizinho...

E acaba morrendo (de novo) numa mala preta da pleura porque "mercedes é status, mercedes é qualidade", custa muita grana mesmo. Mas as coisas são assim mesmo, fazer o quê?

Fizeram isso por burrice? Negativo! 

Obsolescência planejada com a desculpa de ser uma empresa ecológica posando de amiguxa do meio ambiente. 

Mas burrice e incompetência são fatores que nunca podem ser totalmente descartados.

Está aí a honda para dar seu testemunho de que grandes montadoras conseguem aprontar uma корова admirável pelos motivos mais idiotas.
Imagem e reportagem: http://blog.caranddriver.com/2016-honda-civic-recalled-for-engine-failure-fires/

A honda dos EUA chamou recall em 2016 porque esqueceram de colocar ou montaram errado a travinha do pino do pistão...

Pistão e biela soltos podem travar e rachar o bloco do motor, causando vazamento de óleo sobre o escapamento e iniciando um incêndio no cofre do motor... Onde foi que eu já vi isso? Ah, na postagem de ontem...

No início a conversa era de que o problema afetou somente um pequeno número de motores...
Reportagem: http://blog.caranddriver.com/honda-orders-stop-sale-on-2016-civic-official-recall-pending/ — 2 de fevereiro de 2016

Depois revelaram que "os anéis de trava dos pinos dos pistões podem não estar completamente assentados" na verdade queria dizer "podem estar instalados na posição errada ou faltando inteiramente":
Reportagem: http://blog.caranddriver.com/2016-honda-civic-recalled-for-engine-failure-fires/ — 24 de fevereiro de 2016

Como a concessionária descobre se esqueceram de instalar ou montaram errado os anéis de trava dos pistões?

Se alguém souber de outra maneira que não seja desmontando e abrindo completamente o motor para olhar os pistões me diga, porque eu não conheço outro jeito...

Mas foi um recall pequeno, só 42.000 unidades do modelo recém lançado.

Ano passado a ford dos EUA fez um recallzinho para 90 mil carros porque instalou uma bomba de combustível que parava de funcionar de repente... Será que testaram essa joça?
Imagem e reportagem: http://www.technobuffalo.com/2016/08/24/ford-recalls-more-than-90000-cars-says-engines-prone-to-stalling/

... e em 2015 fez o recall de 800 mil carros porque as portas se abriam sozinhas com o carro em movimento...
Imagem e reportagem: http://www.ibtimes.com/ford-motor-recalls-520000-ford-fusion-sedans-lincoln-mkz-luxury-cars-ford-edge-1901476

... e também chamou de volta mais 520 mil carros porque a direção elétrica pifava por causa da corrosão dos parafusos de fixação que não resistiam ao sal aplicado para impedir a formação de gelo na pista.

Detalhe: 
Detroit Free Press

A sede mundial da ford na terra onde nasceu, viveu, fundou, deu o sobrenome à empresa e hoje está rolando de raiva a sete palmos o seu Henry fica na região de Detroit, Michigan — esse lugar aqui, ó:

Bem que eu estava sentindo falta da ford nestas postagens....

Eu poderia continuar citando outros erros bobos, mas são tantos e de tantas montadoras... garanto que não escapa ninguém.

Não é essa a imagem que fazemos das grandes fabricantes, não é?

Todos conhecemos as nobres intenções das empresas, oferecer seus produtos com a maior qualidade pelos melhores preços... Melhores pra quem?

Quem pensaria mal delas?

Somente alguém com muita maldade no coração suspeitaria que essas etapas de projeto, controle de qualidade e produção de motores e veículos foram negligentes, apressadas... e em alguns casos com segundas, terceiras e quartas intenções inconfessáveis. 

Somente um euspírito de porco acusaria as empresas de responsáveis por criar condições de trabalho e metas que causam os 'erros' de seus funcionários.

Mas o fato é que recalls por motivos bizarros como esses surgem de 'erros' em consequência de decisões de diretoria e gerenciais tomadas nas empresas.

As montadoras enxugam o tempo todo cada centavo possível das peças, prazos e processos de produção a fim de atingir metas inatingíveis.


A pressão por esses resultados leva a uma economia vergonhosa.

E quando as coisas dão errado, os fatos são encobertos o máximo possível. 

Sempre douram a pílula falando em "pequenos problemas", "poucos veículos", "pura precaução"... 

Depois quando o vexame e o prejuízo são grandes demais, aí vira "culpa dos proprietários"... nunca vi eles assumirem que foi desleixo puro deles mesmos.

Você pensa que a gm aprendeu a lição de que amoitar os fatos não compensa?

Pensa que eles aprenderam alguma coisa com o escândalo do Fiero visto ontem?

Negativo, eles continuaram amocambando informações sobre a gravidade de problemas fatais, tudo em nome de uma economia porca.
Reportagem: https://carros.uol.com.br/noticias/redacao/2014/04/01/recall-do-malibu-deve-complicar-situacao-da-gm-em-cpi-nos-eua.htm — É o recall do Malibu, mas por causas dos cintos de segurança... aqueles da postagem anterior das bielas fugitivas nunca foram chamados pela fábrica, foram amoitados.

Ou tem outro nome a economia de uns poucos centavos nas molinhas de cada miolo de ignição que a general motors fez e que resultou em uma centena, talvez centenas de famílias destruídas?
Reportagem: http://www.estadao.com.br/jornal-do-carro/noticias/servicos,gm-reconhece-mais-sete-mortes-por-falha,24269,0.htm

Os centavos poupados resultaram em 97 mortes nos EUA até maio de 2015, fora as lesões — felizmente o Brasil ficou fora disso. Tema para postagem futura. 

Até a data dessa notícia a gm havia recebido 474 pedidos de indenização por mortes, 289 por lesões e 3.579 por ferimentos em que os motoristas e passageiros foram parar no hospital. 

Ferimentos graves que resultaram em tetraplegia, paraplegia, amputações, danos cerebrais permanentes ou queimaduras generalizadas. 

Parabéns, engenheiros, gerentes e diretores da gm! 

Já em 2005 pensavam em soluções para o problema e a empresa se recusou a consertar por causa do "aumento de custo inaceitável"!
Reportagem: http://www.foxnews.com/politics/2014/04/01/victims-relatives-demand-answers-from-gm-over-death-trap-cars.html

Economizaram 57 centavos de dólar em cada miolo de ignição, cerca de 2 reais atuais em cada carro!

O conserto da peça em si era barato, o que iria custar caro era o dano para a imagem da marca se convocasse o recall preventivo que evitaria mortes... 

Acabaram sendo obrigados a convocar o recall de 2,6 milhões de automóveis, indenizar centenas de famílias e milhares de feridos, dando um prejuízo aos acionistas da empresa de mais de 4 bilhões de dólares

Isso fora os recalls de outros 28 milhões de carros e caminhões por outros motivos naquele ano.

Foram 13 recalls em 2014.

Um deles de 1,4 milhão de carros no mundo todo porque o sistema de direção de nova tecnologia elétrica em vez de hidráulica falhava de repente e "algumas colisões com pessoas feridas podem ser relacionadas à perda da assistência elétrica".

PA-RA-BÉ-NS, GM. Não se separa o NS, mas eles merecem.

Não há dinheiro de indenização que pague uma única vida.

Se os fatos tivessem sido divulgados, centenas de pessoas não teriam morrido.

Não tenho nada pessoal contra a gm, minha família já teve chevrolet. Assim como ford, vw, fiat, renault, honda, piaggio e dafra — e nunca tivemos problemas assim tão graves.

Mas o que me incomoda é ver que nenhuma montadora, seja de carros ou motos, escapa de colecionar esqueletos — figurados ou não — cada vez mais rápido e por motivos mesquinhos.


Imagem: disney.wikia.com
A negligência na inspeção de bielas e limpeza dos cavacos dos motores da gm, hyundai, kia e talvez harley ocorreu porque as montadoras economizaram alguns segundos na linha de montagem — ou não fizeram seu trabalho direito.

O esquecimento e montagem incorreta dos anéis de trava dos pistões da honda resultou de falta de treinamento e falta de controle de qualidade do processo.

A mercedes usar fiação que objetiva se decompor vai contra todos os princípios de qualidade. Se isso não foi intencional, revela um desconhecimento da realidade do mundo aterrorizante por parte da nova geração de engenheiros...

A ford soltar carros no mercado que não conseguem manter as portas fechadas, bombas de gasolina que falham no primeiro ano de uso, componentes fixados com parafusos que não aguentam uma condição normal e bem conhecida por seus engenheiros...

Isso mostra a pressa com que são desenvolvidos os novos projetos sem os devidos testes de resistência e durabilidade — recall virou algo absolutamente normal, quando deveria ser a coisa mais rara do mundo.

O uso de óleos inadequados e em quantidade insuficiente surgiu devido à intenção de fabricar motores verdinhos e ecológicos consumindo menos combustível e lubrificantes com menor custo de manutenção para os proprietários e o bem de nosso meio ambiente... Ah, conta outra, vá!

A redução do cárter e da quantidade de óleo do Fiero ocorreu porque era uma solução mais barata do que construir um motor específico para as necessidades do modelo.

E também mais barata do que reprojetar o compartimento do motor — coisa que acabaram tendo que fazer porque lá as instituições governamentais são sérias.

A incompetência na tomada de decisões de quem olhou para 57 centavos e não olhou para as consequências de deixar os ocupantes dos carros morrerem... isso me deixa muito revoltado.

Mas as leis da Física e da Mecânica são implacáveis e, já dizia aquele cara do filme, дерьмо случаетсяAinda mais nesse ramo.

O fato é que, acredite você ou não, é desse jeito que a banda toca no mundo todo — e há muito, muito tempo.

Mas hoje vamos parar por aqui.

Se quiser continuar se divertindo com as mancadas sobre 4 rodas, leia esta reportagem do site Flatout sobre os recalls mais estranhos e bizarros da indústria automotiva. Lá não tem nenhum repetido...

Na próxima postagem vou falar de coisas mais próximas da gente — recalls por falhas de projeto e fabricação assustadoras que estão acontecendo com carros aqui mesmo no Brasil.

Um abraço,

Jeff

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O carro sem óleo que pegava fogo por 'erro' de projeto

Problemas de produção como aqueles da postagem de ontem afetam apenas um lote que pode ser identificado, rastreado e reparado via recall.

Mas batatadas na criação do projeto são muito piores porque afetam todos os veículos fabricados com consequências muito graves.

E o reparo pode ser muito complicado, até impossível — veja o que aconteceu com as motos Indian e com os quadriciclos Ranger, e esse é meu grande receio quanto às motos Harley.


Não é este, é pior...
O caso mais saboroso que encontrei na categoria "falha grosseira de projeto" — até agora, porque é só cutucar que aparecem mais bichos-de-conta — é este aqui:

Não, não o da figura...

Coincidentemente, também é da general motors, que na época era a maior montadora americana.

Em 1984 a divisão Pontiac da gm registrou centenas de casos de incêndio no compartimento do motor de um modelo recém lançado, projeto novo em folha, chamado Fiero — feroz em espanhol. Mas de esportivo ele só tinha o jeitão.

Por uma marmotagem do destino a fabricante adotou como símbolo do Fiero uma Fênix, a ave mitológica que ao morrer pegava fogo e renascia das cinzas...

De novo o carro só tinha mesmo a carroceria, porque — visando reduzir custos — a suspensão, o motor e outros componentes foram reaproveitados de outros já existentes. O que não seria nenhum demérito se a adaptação fosse bem feita.

Só que o motor do pacato sedã que doou o órgão não cabia lá dentro e ele teve de ser adaptado — da pior maneira.

O certo para um carro "esportivo" seria aumentar o cárter prevendo o uso mais severo, mas por pura falta de espaço e economia de custos a gm reduziu seu tamanho... deu no que deu.

Isso criou um problema mecânico tão grave que em 1990 a gm foi obrigada a convocar um recall que atingiu TODOS os 244.000 Fieros fabricados.

Por quê o Fiero pegava fogo?

Logo no primeiro ano de uso o motor estourava.

A biela quebrava e rachava o bloco do motor — e o óleo vazando sobre o escapamento quente começava um incêndio. 

A cada cinco carros, um deles dava perda total do motor e pegava fogo debaixo do capô com menos de um ano de uso. Só isso.

Sabe a causa?
Imagem: jalopnik.com
Sua beleza real estava na lógica de seu projeto...

Além de detalhezinhos básicos, como:

Uma em cada 4 bielas apresentar problemas de qualidade do material...

O que dava aproximadamente uma biela problemática para cada carro fabricado...

Teria havido um pequeno descuido bobo do fabricante (clica que aumenta):
Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Pontiac_Fiero#Engine_fire_reputation

Pois é, na versão da wikipedia, o fabricante informou por engano que o motor usava só 3 quartos de galão de óleo (uns 2,8 litros).

Cometeu esse erro no manual do proprietário, nas especificações técnicas, nos manuais de oficina, nas informações às concessionárias e nos releases para a imprensa especializada. Tá bom.

E por outro erro lamentável, diz a wikipedia, a marcação da vareta medidora indicava o nível correto e suficiente com essa quantidade errada de óleo no motor. Que coincidência incrível, não é mesmo?

Só depois de milhares de carros estourando biela e pegando fogo é que descobriram essa formidável série de enganos... Não tem como duvidar dessa estória, né?

O nível correto era atingido com 4,5 quartos de galão.

Os britânicos e americanos usam medidas do tempo do Império Romano porque o nosso sistema decimal é muito complicado (para eles). Ou seja, 4,5 quartos perfazem um galão mais meio quarto — ou se preferir, 1 galão mais 1/8 de galão, já que metade de 1/4 é igual a 1/8. Como 1 galão contém 4 quartos, o mesmo que 4/4 que é o mesmo que 8/8. Portanto 4,5 quartos = 4/4 + (1/2 x 1/4) = 8/8 + 1/8, o que dá exatamente 9/8 ou 1 1/8 galão. Mais de dez anos tendo aula de fração na escola, fazendo lição de casa, exercícios em sala, trabalhos, provas e mais provas, até no vestibular essa флейта caía — e só agora depois de 40 anos eu usei pra alguma coisa...

O coitado do motor precisava de 4,26 litros de óleo.

E sempre recebia 1,4 litro de óleo a menos...

O carro já saía de fábrica e era abastecido nas revisões com o mínimo do mínimo de óleo. 

Aí o consumo normal fazia o nível abaixar ainda mais, mas a indicação da vareta dizia que estava tudo bem. Não estava.

Chegava uma hora em que o motor superaquecia por falha na lubrificação, as bielas 'frágeis' se quebravam, atravessavam o bloco, o óleo vazava em cima do escapamento e o nix Fiero pegava fogo embaixo do capô.  Imagem: http://www.rotaryeng.net/Rotor-v-Piston.html
O carro era praticamente uma dafra Kansas ou Speed de quatro rodas. Ah, não, a Kansas e a Speed não pegam fogo, só estouram o motor por falta de óleo.

(O pessoal do Fiero foi muito burro — se tivessem adotado um procedimento complicado e confuso para medir o nível do óleo e só deixassem escrito no manual do proprietário que ninguém lê, eles nunca seriam descobertos e poderiam sempre jogar a culpa nos proprietários... na indústria de motos todo mundo faz isso e nunca foram obrigados a fazer recall...)

Bom, essa é a versão da wikipedia que põe mel na chupeta falando em engano da montadora... 

Mas a wikipedia pode ser editada sabe lá por quem e com que interesses — coisas cavernosas que aparecem num dia desaparecem no outro.

Já outras fontes informativas dizem que o problema todo não foi engano nenhum, mas a redução do tamanho do cárter para caber dentro do cofre do motor.

A meta de fazer um carro esportivo de baixo custo e baixo consumo de combustível levou a um formato em cunha da carroceria onde não cabia o motor reaproveitado de outra família da montadora.

Quer dizer, não cabia se fosse mantido o cárter de tamanho decente original — nada que uma redução de tamanho não resolvesse.

O cárter acabou reduzido de 4 quartos (1 galão ou 3,8 litros) para 3 quartos (2,8 litros).

Eliminaram 1 litro de óleo do motor... e depois consertaram aumentando a quantidade para 4,25 litros.

Essa explicação faz mais sentido que o "engano" da wikipedia, não faz? Pois é.

Mas ninguém explica porque a solução final usava quase meio litro de óleo a mais que o original — se tiraram 1 litro, porque acrescentaram 1,4 litro?
Seria porque o projeto original já estava abaixo do correto? 

Será que as bielas eram mesmo frágeis? 

Ou essa foi uma desculpa mais aceitável do que dizer que o motor previa mesmo usar menos óleo intencionalmente, só que eles não esperavam problemas tão graves e tão espalhafatosos assim tão cedo? Mistério...

Cereja do bolo:

Quando os problemas apareceram, sabe o que a fabricante fez?

A general motors alegou que o problema só aparecia porque os proprietários aceleravam demais o carro esportivo e se descuidavam do nível de óleo — mesmo sendo novos e revisados nas concessionárias... Não sei porquê, lembrei da dafra.

Apesar de 1 em cada 5 carros apresentar problema, a gm tentou livrar a cara:

Primeiro relutou em convocar um recall (linha azul) porque isso arranharia a imagem e traria prejuízo para a empresa. O cliente acima de tudo? O cliente em primeiro lugar??? HAHAHAHA...

Depois tratou os casos de incêndio via um recall branco fazendo reparos em garantia e às vezes dando grana para as vítimas ficarem de bico calado (linha vermelha).
Reportagem e vídeo removido a pedido de uma parte interessada: http://jalopnik.com/5501545/pontiac-fiero-the-definitive-history

Mas as autoridades lá (NHTSA) são rigorosas e não se contentam com cartinhas de explicações de advogados falando que a empresa ajuda velhinhas a atravessar a rua.

Pressionaram a gm que tentou minimizar o assunto e jogar a culpa nas costas dos proprietários (linha verde).

Mas a NHTSA não se deixou tapear e cobrou atitudes.

Na esperança de ficar na moita e passar em branco, a fabricante convocou o recall para a véspera do Thanksgiving (linha amarela), o dia de rechear o peru.
вы не едите индейки, индейка ест вас.

Para os americanos o Dia de Ação de Graças é o maior feriado prolongado nacional, o início das festas natalinas deles. Depois vem o Halloween, Hanukkah, Festivus, Christmas, semana morta antes do New Year, férias de inverno...

É um feriadão em época de festa tipo nosso Natal, semana morta antes do Reveillon ANO NOVO, quinzena morta depois do começo do ano, férias de verão e quinzena do Carnaval aqui na terra brasilis. Gaudêncio manda lembranças!

Se tivessem um tapete bem grande, enfiavam o recall por baixo e não falavam mais no assunto.

Estranhamente, o vídeo que ilustrava o assunto foi removido do youtube devido a múltiplos pedidos de outras pessoas (ou empresas) alegando violação de direitos autorais.

Quem seria esse autor de um vídeo sobre um recall? Fosse quem fosse, a informação desapareceu.

E é por esse motivo que sempre cito as fontes das minhas pesquisas... 

Aproveite para conferir antes que algum interessado suma com o assunto.

Amanhã vamos tentar entender porque essas falhas patéticas acontecem.

Até lá,

Jeff