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quarta-feira, 3 de maio de 2017

O pequeno detalhe que derruba...

Primeiro dia, quatro horas depois de comprar a moto:


Por que isso aconteceu?

O autor do vídeo fala que nem ele sabe.

O "whiskey throttle" que ele fala não tem nada a ver com bebida.

É uma gíria em inglês para acelerar do jeito que ele acelerou.

Por que ele perdeu o controle de maneira tão bonita?

Várias possibilidades:

Não estar acostumado com a aceleração de uma moto nova mais potente que a anterior é uma delas.

Cera no pneu zero km é outro fator que causa derrapagens e tombos durante os primeiros 100 a 150 km.

O dia estava frio. Pneus derrapam com facilidade em dias frios — ainda mais se estiverem com cera. 

Estrear uma luva nova pode ser um fator contribuinte, elas não agarram muito bem.

Manoplas novas em folha podem estar escorregadias por serem... novas — podem ter sido enceradas na revisão de entrega.

Note que ele buzinou porque a mão dele escorregou e esbarrou no interruptor, então a mão dele não estava firme nos comandos.

E como observado pelo leitor Tiago Mesquita, a não adaptação à regulagem da embreagem, ou melhor, a não regulagem conforme sua preferência, pode ter contribuído também.

Cada um desses fatores pode ter influído, cada um deles poderia ter sido controlado, mas houve mais um fator complicador:

Ele tentou sair com o guidão esterçado.

Quando você arranca com o guidão esterçado, a moto tem dificuldade para ir em frente.

A roda traseira empurra a moto diretamente à frente, mas a roda dianteira esterçada freia esse movimento em linha reta.

Normalmente isso não é um problema — a força do motor é suficiente para movimentar a moto com o guidão esterçado.

Mas essa resistência ao movimento se somou à dificuldade de vencer o desnível da sarjeta.

Aí o novato acelera forte para compensar e, na hora em que a roda dianteira fica alinhada, a moto desembesta.

A moto arranca com mais vigor do que o piloto estava acostumado, o pneu encerado e frio patina, as mãos escorregam no comando... 

Foi o que aconteceu no vídeo e poderia acontecer contigo também.

Mas não agora que você ficou sabendo de mais esse macete.

Um abraço,

Jeff

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Cruzamentos, travessias e motinhos engasgando

Esqueci de comentar na postagem de ontem:

Motociclistas novatos também confiam demais em suas motos.

Se esquecem ou ainda não sabem que motos volta e meia engasgam por vários motivos.

Alguns pilotos só descobrem da pior maneira possível que elas podem falhar na hora em que estão tentando atravessar um cruzamento movimentado ou uma BR.
Imagem meramente ilustrativa e reportagem: http://jornalfatonafoto.com.br/polemica/acidente-envolvendo-carro-e-moto-no-cruzamento-das-ruas-caingangs-e-iporans — Não dizem que foi esse o caso, mas o resultado é sempre o mesmo...


Imagem meramente ilustrativa e reportagem: http://carlsonpessoa.blogspot.com.br/2016/06/motocicleta-e-carro-colidem-em.html — Esse acidente foi causado por inexperiência em frear a moto, mas o resultado é o mesmo.

Motos de pequena cilindrada estão mais sujeitas a esse tipo de ocorrência:

A moto pode apagar justamente ao ser exigida para uma aceleração intensa — aquela com a qual você conta para te livrar de uma encrenca. 

Motores de pequena cilindrada são motores fracos.

Quando exigidos no limite, não aguentam o esforço e desmaiam param de funcionar, simples assim.

Isso é relativamente comum para novatos em saídas em primeira marcha também nos carros, mas nas motos é muito mais fácil de acontecer.

O novato ainda não domina muito bem o quanto pode acelerar e exigir do motor sem o risco de ele apagar, então ainda toma cuidado.

O problema é quando ele pensa que não é mais novato... 

Ele já domina a técnica de aceleração sem deixar o motor morrer, mas não conta com outros fatores próprios da motocicleta.

Na hora em que aposta tudo em uma travessia arriscada, a moto estanca bem na frente do carro.

Justamente na hora em que o motor não podia morrer, ele morre.

Quatro fatores principais colaboram para isso:

1) Por ser pequeno, o motor da moto não conta com reserva de potência e torque — ele já está mais perto do limite de morrer ao ser exigido.

2) Como possuem apenas um cilindro, uma falha momentânea do único cilindro é uma falha momentânea total de todo o motor.

Em baixa velocidade, como não há outros pistões ajudando a manter o motor girando, é mais fácil ele parar completamente do que falhar e voltar a funcionar por si só.

3) Justamente por causa dessa limitação, os motores de motos sofrem muito mais por falta de manutenção adequada. 

Sujeira acumulada no filtro de ar e desgaste dos eletrodos da vela de ignição prejudicam a força da explosão.

Um motor já no limite e que fica impedido de dar 100% do que é capaz está ainda mais propenso a engasgar e morrer de repente quando exigido intensamente.

4) Ao contrário dos carros, a moto se inclina para fazer conversões — e isso é causa de muitas engasgadas que o pessoal não associa causa e efeito.

Causas:

a) Ao se inclinar, basta uma gotinha de água acumulada no fundo do tanque entrar no circuito de combustível do carburador ou da bomba da injeção para a explosão deixar de ocorrer momentaneamente.

Essa água pode entrar no tanque pela vedação desgastada da tampa do tanque de combustível em dias de chuva, ou vir junto com a gasolina que você acabou de abastecer naquele posto não muito confiável...

b) Ao se inclinar, motos carburadas podem apresentar falhas no preenchimento da cuba do carburador.

A cuba precisa estar com o nível correto de combustível para manter um fluxo coerente dentro do carburador.

A pressão com que o combustível chega ao carburador determina a velocidade e a perfeição do enchimento da cuba.

E nas motos carburadas, essa pressão de preenchimento da cuba é determinada pela quantidade (peso) do combustível dentro do tanque.

Essa pressão é aquela que sobra depois conseguir passar pela tela do filtro da torneirinha (que pode estar meio obstruída por sujeira acumulada em anos) e pela mangueirinha — que com o tempo pode se deformar, dobrar e estrangular a passagem de gasolina.

Esse probleminha aparece principalmente quando você está com pouca gasolina no tanque... 

Como desaparece depois do abastecimento, a gasolina leva a culpa e a turma acaba esquecendo até ele acontecer de novo.

E quando volta a acontecer na pior hora, vira um problemão.


São probleminhas que não acontecem quando a moto é nova e que você não espera que venham a acontecer... 

Mas a moto envelhece, as vedações se desgastam, os filtros ficam obstruídos e algumas manias começam a aparecer.

Naquele momento decisivo em que você pede mais gasolina para acelerar, uma pequena gota de água ou bolha de ar / vapor de combustível entra no circuito do carburador / injeção e causa a engasgada do motor.

Essa engasgada imprevista pode ser suficiente para impedir o término de uma travessia arriscada antes da chegada do carro, ônibus ou caminhão.

Não acontece nas motos novas, mas começa a aparecer em motos mais rodadas, quando o motociclista pensa que já conhece tudo da moto — motos adoram causar surpresas.

Essa é mais uma particularidade da mecânica das motos e mais um motivo para você não se arriscar em cruzamentos e travessias sem ter uma boa margem de segurança sobre a margem de segurança.

É claro, manter a manutenção e limpeza dos filtros em dia também é um fator essencial — mas quem faz isso?

Abração,

Jeff

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Os recalls de motos de arrepiar e o mistério daquela honda Gold Wing que pegou fogo sozinha no meio da estrada

A lista de motos recém lançadas que passaram por recall nos EUA nos últimos tempos é enorme.

Primeira página de outras muitas...
Somente no ano de 2015 você teve recalls da harley-davidson Dyna / Softail, aprilia Shiver 750, aprilia Caponord 1200, polaris Slingshot, brammo Empulse, can am Spyder, kawasaki Concours 14, indian Scout, ducati Multistrada 1200...

Vários modelos da yamaha deram problema no seletor de marchas, harley-davidson Street e Touring por problema na embreagem, ktm, yamaha R1, triumph Daytona 675 e Speed Triple e honda CBR 1000S por problemas nos amortecedores...

45 mil motos de vários modelos da honda por erro de aplicação de selante no interruptor de partida capaz de deixar a moto inoperante, honda CB 500F e CB 500R, bomba de combustível das harley-davidson Street 500 e Street 750, freio nas motonetas KYMCO, mangueira de freio nas motonetas bmw C 600, pinça do freio dianteiro nas suzuki GSX 1000...

Tudo isso só em tempos recentes.

Em 2017 já foram mais 6, descontando aqueles dos 7 modelos da indian.

Teve mais um outro da polaris que eu nem comentei porque é um triciclo que eu pensava que o Slingshot não era vendido aqui no Brasil.
Imagem: http://www.moto.com.br/acontece/conteudo/polaris-suspende-vendas-do-triciclo-slingshot-83247.html

Vou comentar somente os recalls com grande risco de vida para os ocupantes:

Você encontra casos apavorantes como o recall de 46.426 motos de vários modelos da bmw só nos EUA por possibilidade de quebra do flange de montagem da roda traseira.
Imagem e divulgação: http://g1.globo.com/carros/motos/noticia/2015/04/bmw-convoca-4558-motos-no-brasil-para-recall.html

Aqui no Brasil o recall afetou somente os modelos K 1200 e K 1300, mas note que foram chamadas motos fabricadas durante 8 anos inteiros...

Ou seja, o excesso de aperto determinado no projeto foi aplicado durante esses 8 anos e só foi detectado depois que as motos mais antigas começaram a dar problema...

Não queria estar na pele do proprietário de uma dessas no momento em que a roda traseira rachou e se soltou.

Com o travamento da roda traseira, o tombo é certo e o risco de atropelamento — bah, não quero nem pensar.


Entre os recalls nos EUA não está a história bizarra e não muito bem explicada do recall das kawasaki Ninja ZX-10R e Concours 14 feito aqui no Brasil...
Imagem e ivulgação: http://g1.globo.com/carros/noticia/2012/08/kawasaki-comunica-recall-dos-modelos-concours-14-e-ninja.html

Sabe o que eu achei curioso na divulgação feita na mídia?

As reportagens para falar do recall mostram fotos dando destaque para a Concours 14 (acima) por causa de um problema menor — o acúmulo de sujeira externa que bizarramente exige a substituição do cilindro mestre (linhas azuis)...

E ninguém deu destaque ao caso muito mais grave da moto muito mais vendida Ninja ZX 10R (linhas vermelhas)...
Imagem: Divulgação kawasaki

Nas manchetes o pessoal fala de um simples "acúmulo de óleo" fora do motor... 

E só nas letrinhas miúdas quase no final da reportagem quando ninguém mais está lendo — do lado de uma fotinho discreta da moto — é que falam que isso pode causar perda de controle da Ninja. 
Divulgação: http://g1.globo.com/carros/noticia/2012/08/kawasaki-comunica-recall-dos-modelos-concours-14-e-ninja.html

Ninguém fala em lugar nenhum que será necessário trocar a carcaça fundida defeituosa e fazer a reconstrução completa do motor... Mania de dourar a pílula que esse pessoal tem.

Ou será que taparam o furo com uma gambiarra de epóxi? Dona kawa, fala sério, hein?

Descobrir uma falha grosseira de fundição, ocorrida na primeira etapa do processo industrial, somente depois que a moto já está na garagem do dono? 

Que raio de controle de qualidade vocês estão usando aí no Japão? Ou é na fábrica da Tailândia, onde a mão de obra é mais barata? Sinceramente... pô, que decepção, dona kawa...

Outro caso que não teve o destaque merecido por aqui foi o recall da yamaha para as YZF R1 por uma falha potencialmente mortal — a quebra das engrenagens do câmbio.

O recall envolveu TODAS as motos fabricadas em 2015...
Imagem e reportagem: http://www.moto.com.br/acontece/conteudo/yamaha-yzfr1-2015-recall-por-problema-no-cambio-92568.html

Esse recall foi pouco noticiado no Natal porque não ocorreu no Brasil já que a yamaha não importa essa nova viúva negra para cá —então não chamou a atenção da grande mídia, mas devia, pela seriedade do problema.

Uma engrenagem quebrada no câmbio de um carro faz o seu fusca travar no meio da avenida Rubem Berta no horário de pico. Já fui contemplado com uma dessas, só saí de lá com guincho.

Se eu estivesse de moto não tinha blog.

Por aqui a yamaha não fez o recall da R1, mas em compensação fez o da YZF-R3, a rival da Ninjinha, por problemas na bomba de óleo, embreagem e possível erro de montagem das travinhas do câmbio...
Imagem e divulgação: http://g1.globo.com/carros/motos/noticia/2016/06/yamaha-r3-entra-em-recall-para-trocar-bomba-de-oleo-e-placa-de-embreagem.html

TRÊS problemas extremamente graves em um único modelo — TRÊS defeitos com potencial para derrubar o motociclista e causar um acidente fatal.

Como foi testada essa moto antes do lançamento que não perceberam TRÊS problemas assim graves?

Não fizeram testes de rodagem de alta quilometragem? 

Deixaram essa tarefa para os proprietários? 

Os donos agora são pilotos de teste sem remuneração? Ou melhor, pagando para servir de cobaias? Francamente....

A yamaha também fez o recall da MT-09 por outro motivo, a quebra da coroa de transmissão — outro problema com o mesmo perigo de derrubar os ocupantes:
Imagem e divulgação: http://g1.globo.com/carros/motos/noticia/2015/11/yamaha-mt-09-e-chamada-para-recall-no-brasil.html

A MT-09 é esse modelo que você não vê na foto da divulgação do recall. Será que não queriam queimar a imagem?

A quebra de engrenagens ou eixo do câmbio, e também da coroa de transmissão, pode causar o travamento da roda traseira no meio de uma rodovia.

Um tombo certo com muita possibilidade de resultar em lesões graves, atropelamento e morte.


O ano de 2016 não foi muito bom para a yamaha...
Imagem e divulgação: http://g1.globo.com/carros/motos/noticia/2016/05/yamaha-xtz-150-crosser-tem-recall-por-possivel-quebra-do-chassi.html

Quem diria que a yamaha conseguiria lançar a Crosser com risco de quebra do chassi, um defeito que a gente só viu acontecer na dafra Kansas?

Exatamente o mesmo problema que a dafra nunca teve a hombridade de assumir.
Recall da yamaha Crosser: g1 autoesporte
Eu adoro a sutileza e a cara de pau do texto do recall...

Para eles o problema não está no chassi ter sido MAL PROJETADO...

Está nas "determinadas situações de uso frequente da motocicleta"...

"em pisos irregulares com trepidação constante"...

Pô, yamaha, não vem com esse papo de dafra!

Projeta uma moto que não aguenta ser usada por um ano e vem por a culpa nas ruas e condições normais que vocês não souberam prever?

Ora, faça o favor! Pelo menos a yamaha teve a decência de convocar o recall... 

Tantos problemas tão graves em motos recém lançadas, dona yamaha... 

O que está acontecendo com sua engenharia e controle de qualidade, dona yamaha?

Um recall por motivo semelhante ao da R1 — e risco idêntico — foi feito pela suzuki em relação a uma moto com boas vendas no Brasil, a GSR 150i.

Tome cuidado na hora de comprar uma dessas de segunda mão, verifique se o antigo dono soube do recall.

Melhor ainda, não confie na informação dele, verifique você mesmo se o recall foi feito visitando uma concessionária suzuki — lá eles têm como comprovar se o reparo foi executado. Ou tome muito cuidado ao passar pela Rubem Berta.

Recalls não têm prazo de validade, a montadora é obrigada a resolver o problema criado por ela — o que você não pode é ficar esperando o pior acontecer.

Sentiu falta de alguém?

Não falei até agora da honda, né?

Pois é.

Se o ano de 2016 foi péssimo para a yamaha, o de 2015 foi muito ruim para a honda...

Em 2015 a honda convocou mais de 12 mil motos de 10 modelos aqui no Brasil — incluindo a NC 700, NC 750, a Shadow 750, e as quatro cilindros CBR 600, Hornet e CB 650.

E isso foi noticiado pela rede globo como risco de desligamento repentino do motor por "curto-circuito e superaquecimento do interruptor de partida".
Imagem e divulgação: http://g1.globo.com/carros/motos/noticia/2015/08/honda-faz-recall-de-11922-motos-modelos-podem-desligar-sozinhos.html

Mas o recall norte-americano falava em risco de o motor apagar e não voltar a funcionar em 33 modelos por causa do excesso de selante no solenoide de partida — starter relay switch.
Divulgação do recall: http://www.motorcycle-usa.com/2015/07/article/honda-recalls-45153-motorcycles/

Esse site americano nem sequer mencionou a possibilidade de incêndio do chicote elétrico e outros sites divulgaram com pequeno destaque a chance de a moto pegar fogo. Estranho.

Por que aqui no Brasil na mesma época o mesmo recall, apesar de noticiar corretamente os riscos envolvidos, foi divulgado de maneira diferente?

Sem falar nada sobre o desleixo na aplicação do selante no relé, a versão brasileira publicada no g1 disse que o problema estava no interruptor de partida:
Divulgação do recall: http://g1.globo.com/carros/motos/noticia/2015/08/honda-faz-recall-de-11922-motos-modelos-podem-desligar-sozinhos.html

Eu até pensei que fosse erro da globo, mas entrei no site de recalls da própria honda e a informação diferente e errada partiu mesmo de lá:
Recall: https://www.honda.com.br/noticias/honda-convoca-proprietarios-de-diferentes-modelos-para-inspecao-e-caso-necessario

É isso que dá botar estagiário para escrever literatura técnica...

A tradução correta de starter relay switch é simplesmente relé de partida, e não interruptor de partida e nem interruptor do relé de partida, como está no site da montadora.

Quem ativa e desativa o relé de partida é o interruptor de partida no guidão — o relé é completo em si mesmo, chamá-lo também de interruptor só serve para causar confusão. Como essa.

Interruptor e relé de partida nem ficam perto um do outro...
O resultado é que o boletim de recall saiu errado e incompleto...

Concorda que noticiar um curto-circuito no interruptor de partida dá a impressão de que o problema é menos sério?

Mais fácil de resolver no guidão do que nas profundezas do chassi, né?

Não digo que isso tenha sido intencional, mas o fato é que a divulgação aqui no Brasil omitiu a causa do problema — uma falha grosseira na aplicação do selante durante a fabricação da peça.

Afinal, por que lá fora disseram a causa e aqui no Brasil não falaram nada? Nem falaram que o curto-circuito pode torrar o chicote elétrico?

Negar informações aos clientes brasileiros sobre o problema não ajuda o pessoal a se conscientizar da urgência em cumprir o recall, viu dona honda?

Custava falar exatamente o que a matriz lá no Japão determinou? 

Lá na Austrália e nos Estados Unidos foram bem claros... a aplicação incorreta do selante pode causar o travamento do relé causando parada do motor e a impossibilidade de ligar novamente com risco de acidente para os ocupantes e terceiros, ou um curto-circuito e também eventualmente causar o incêndio do chicote elétrico e da moto.

Porque pensando que o problema está no interruptor ali no guidão, e o interruptor não dando problema nenhum, o que o cidadão faz?

A tendência dele é pensar que a moto está livre de precisar atender o recall, né?

Isso não contribui para aumentar a baixa média de atendimento a recalls que segundo o PROCON de SP está abaixo de 13%... 

Parece que o pessoal lá não conhece piscologia. Piscologia vem de piscis, peixe em latim. Dori não manda lembranças.

Voltando a falar dos recalls nos EUA, note que na lista de 33 modelos com risco eventual de curto-circuito no chicote elétrico lá dos EUA não está relacionada a honda Gold Wing.

Ela estava pegando fogo na parte dianteira, inclusive roda e mangueira do freio dianteiro, e não há nenhum recall para algo parecido com isso.


O que poderia levar uma moto a pegar fogo sozinha como aconteceu com aquela?

Seria um caso que exigiria recall e que não foi convocado pela montadora?

É o que discutiremos na postagem de segunda-feira.

Até lá, um abraço e um bom fim de semana,

Jeff

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Asfalto molhado escorrega que é uma maravilha

Se você tem uma moto potente, lembre-se de que dias molhados exigem mão leve no acelerador.

Assista este vídeo e nunca mais se esquecerá disso.


Motos modernas (bem modernas) de alta cilindrada já são equipadas com controle de tração.

Controle de tração é como um freio ABS ao contrário — o freio ABS alivia momentaneamente a força da frenagem para evitar travar as rodas, certo?

O controle de tração alivia de maneira automática e momentânea a potência do motor para evitar que a roda traseira patine durante uma aceleração intensa.

Ele monitora a rotação da roda traseira e atua no caso de ela começar a girar mais rápido do que seria normal em relação à rotação determinada pelo motor.

Assim, por mais que você acelere, a moto com controle de tração entrega somente o suficiente para você arrancar sem cair devido ao giro em falso da roda traseira.

No futuro, tombos como esse do vídeo não ocorrerão, a eletrônica embarcada eliminará definitivamente o problema.

A menos que o piloto não leia o manual do proprietário.

Ou leia, mas se esqueça como ativar o modo Chuva.

Ou saiba como ativar, mas se esqueça de apertar o botão do modo Chuva.

Ou que o sistema falhe na hora H por uma pane qualquer.

Quer saber?

Melhor não confiar...

Mão leve na hora de enrolar o cabo faz um bem danado e evita pagar micos.

Micos, manetes, espelhos e carenagens.

Um abraço,

Jeff

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Dar tranco na moto estraga o motor de partida? Como funciona a partida elétrica das motos?

Transcrevo a dúvida do leitor gbs na postagem Como fazer a moto funcionar no tranco: 

Minha moto pifou o motor de partida, o mecânico não recomendou o tranco dizendo que era arriscado, porque 'não sei o que' é em X, é uma Virago. 

Ele disse que a escovinha foi 'detonada' pelos poucos trancos que tive que dar. 

Isso procede? 

Alguma dica para instalação caseira de um motor de partida novo?

Bom, vamos lá:

Primeiro, vamos entender de maneira resumida como funciona o motor de partida dos carros:

Quando você aciona o interruptor de ignição, o relé de partida envia corrente para energizar o motor de partida para que ele gire.

Simultaneamente, o bêndix (um atuador com bobina eletromagnética e mola de retorno) empurra uma alavanca que desloca o pinhão para fora do alojamento e ele se engrena com a enorme coroa do volante do motor, fazendo girar o virabrequim.

Quando o interruptor de ignição retorna para a posição normal de funcionamento, o motor de partida para de girar e o atuador se recolhe automaticamente porque, se continuasse engrenado, a rotação do motor faria o motor de partida girar arrastado e suas escovinhas de carvão seriam detonadas. 

Ah, então o que o mecânico falou era verdade?


Até onde eu sei, não.

O sistema de partida da moto funciona de um jeito diferente — ele não tem bêndix.

O pinhão permanece acoplado com a engrenagem louca de partida o tempo todo.

Então como é que as escovinhas não são detonadas?

Porque a engrenagem louca de partida é acoplada a um dispositivo tipo catraca, também chamada de embreagem unidirecional.

Por que ela é chamada de louca?

Porque ela só gira quando está sendo acionada pelo motor de partida.

A embreagem unidirecional é de um desses dois tipos aqui embaixo:

E como o nome diz, ela só permite o giro em uma direção.

Quando você aciona o motor de partida da moto, o pinhão de partida faz girar uma série de engrenagens até chegar à engrenagem louca de partida acoplada à embreagem unidirecional. 
Imagem: https://www.youtube.com/watch?v=2CGfStxPaF8 — Não usei o vídeo porque só mostra o funcionamento de um conjunto defeituoso.

A embreagem unidirecional se acopla ao volante do motor e faz girar o virabrequim até que o pistão comece a trabalhar.

Assim que o motor da moto entra em funcionamento, a velocidade de giro do virabrequim é maior, bem maior do que a velocidade de giro do motor de partida.

Como a catraca permite o giro independente da engrenagem de partida em relação ao volante do motor, o movimento não é transmitido ao motor de partida e as engrenagens param de girar assim que o motor de partida é desligado.

Veja como a embreagem unidirecional atua neste outro vídeo.

Como existe a catraca, o motor de partida consegue fazer girar o virabrequim da moto, mas o virabrequim da moto nunca é capaz de girar o motor de partida.

Então não tem como um tranco danificar o motor de partida, a menos que alguém tente acionar o interruptor de partida durante o tranco, o que seria um contrassenso, porque o tranco só deve ser usado quando o motor de partida não está funcionando.

Do ponto de vista do motor de partida, ou mais exatamente, do ponto de vista das escovinhas do motor de partida, qual é a diferença entre o motor da moto estar girando por causa de um tranco ou pelo funcionamento normal?

Nenhuma. 

Que diferença faz se o virabrequim está girando por causa de alguém acionando o pedal de partida, a roda traseira girando com a marcha engrenada ou porque o motor da moto está funcionando?

É tudo a mesma coisa, a diferença de velocidade de giro entre uma peça e outra determina o desacoplamento automático do motor de partida.

Ou seja: Durante o tranco, o motor de partida não gira porque a embreagem unidirecional não deixa.

Resumindo:

As escovas do motor de partida se desgastam enquanto sua moto fica fazendo nhenhenhém para pegar, porque durante o tranco elas não são afetadas.

Tranco é um último recurso que você precisa conhecer para usar em uma emergência, sair do meio do mato com os cachorros correndo atrás. 

É um recurso perfeitamente válido para motos cujo único problema seja a bateria descarregada.

Funciona bem em motos carburadas, tem chance de não funcionar em motos com injeção eletrônica e dependendo do sistema elétrico da moto, funciona até com moto sem bateria nenhuma.

Fora isso, é blablablá de mecânico que provavelmente preferiria que você tivesse acionado a oficina para eles poderem cobrar o serviço de resgate.

Ou mostrarem como são bonzinhos não cobrando o resgate e incluindo o custo no preço dos serviços que você irá pagar.

Não existe almoço grátis. 

E sobre dicas para instalar um motor de partida novo:

Antes de tudo tenha certeza que o motor de partida realmente está danificado além de qualquer possibilidade de recuperação — ele é um dos equipamentos mais facilmente recondicionáveis do motor da moto, tem gente que até faz o rebobinamento em caso de espiras queimadas...
Imagem: Copiada na cara dura do vídeo do Vinícius em http://leaoesuamoto.blogspot.com.br/2015/01/remontando-o-motor-de-arranque.html

Um coletor (a pista onde correm as escovinhas) pode ser recuperado com lixa e reconstrução dos entalhes entre os segmentos dos pólos, rolamentos podem ser trocados.

As peças que se desgastam mais rapidamente são as escovas porque elas são de grafite. Mesmo assim Jezebel está com as escovas originais e ela já tem mais de 5 anos — até eu me surpreendo.

Escovas gastas são fáceis de trocar, a parte mais chata é a montagem, mas o Vinícius ensina uma técnica porreta no blog dele neste link aqui.

Não deixe de assistir o vídeo, é uma obra prima!


Um abraço,

Jeff