Porque você sabe, EU não me furto às críticas...
Faço questão de responder e deixar as coisas muito claras, Tintin por Tintin.
Imagem: https://terrademordor.wordpress.com/2014/01/19/voce-sabia-tintin-12/
Para tentar dar peso de autoridade para sua crítica, o autor transcreveu textos de sites consagrados de gente que realmente entende do assunto.
Para variar, voltando a falar apenas de óleos xxW-30 e desconsiderando totalmente o óleo 0W-20 determinado pela HONDA:
Fórum: https://www.htforum.com/forum/threads/o-persistente-mito-do-oleo-fino-demais-para-nosso-clima.243520/
Original: http://www.upmpg.com/tech_articles/motoroil_viscosity/
Segue a tradução:
"Eu nem sei dizer quantas vezes eu ouvi alguém, geralmente um mecânico de automóveis, dizer que eles não usariam um óleo para motor 5W-30 porque ele é, "muito fino". Então eles podem usar um óleo para motor SAE 10W-30 ou SAE 30. Nas temperaturas de trabalho do motor esses óleos são os mesmos. O único momento em que o óleo 5W-30 é "fino" é nas condições de partida a frio onde você precisa que ele seja "fino".
E ainda este texto do Bob, the Oil Guy (Bob, o cara do óleo):

Fórum: https://www.htforum.com/forum/threads/o-persistente-mito-do-oleo-fino-demais-para-nosso-clima.243520/
Original: https://bobistheoilguy.com/motor-oil-101/
Este primeiro parágrafo chega a ser hilário quando confrontado com os absurdos escritos naquela crítica:
"Todo mundo, incluindo bons mecânicos pensam que são especialistas neste campo, mas poucos entendem de óleos para motores. A maior parte do que ouço é o oposto da verdade. No entanto é fácil ver como as pessoas se confundem, já que sempre há alguma verdade nessa concepção errada.
A maior confusão é por causa da maneira como os óleos para motores são classificados. É um sistema antigo e está confundindo muita gente. Eu sei que a pessoa está confusa quando eles dizem que um óleo 0W-30 é muito fino para seus motores porque o manual antigo diz para usar 10W-30. Isso é errado.
"O motor é projetado para funcionar a 100°C (212°F) em todas as temperaturas externas desde o Alasca [o estado americano mais frio] até a Flórida [estado mais quente]. Você pode entrar em seu carro em setembro (primavera nos EUA) e dirigir em zigue zague até o Alasca chegando em novembro (fim do outono no hemisfério norte). A melhor coisa para seu motor seria que ele nunca fosse desligado, ou simplesmente fosse mantido em movimento dia e noite. A espessura do óleo seria uniforme, seria sempre 10 [centistokes]. Em um mundo perfeito a espessura do óleo seria 10 em todas as temperaturas."
A crítica comete um erro grosseiro de usar essa argumentação dos especialistas em lubrificação.
Os especialistas falam sobre o preconceito de usar um óleo de viscosidade de inverno menos viscoso — mas continuando a usar a mesma viscosidade em alta temperatura SAE 30 que eles já estavam usando naquele país de clima temperado.
Um argumento totalmente descabido quando se denuncia a redução da viscosidade em alta temperatura de SAE 30 para SAE 20 no Brasil tropical.
Nenhum dos autores citados corrobora o argumento da crítica feita a este blog.
E a argumentação do segundo especialista em óleo tem um erro de interpretação básico...
Vamos analisar o primeiro bloco:
Viscosidades de inverno não são aplicáveis ao Brasil.
Não temos invernos de cair neve como lá, exceto em um punhado de dias em regiões muito específicas.
Portanto esse texto é inútil como sustentação porque foge do assunto abordado, que é o óleo 0W-20, caso encerrado.
Segundo bloco, esse é mais interessante:
Primeiro parágrafo, paradoxalmente aplicável em sua totalidade ao texto da crítica.
Segundo parágrafo, vide explicação logo acima, caso encerrado.
Terceiro parágrafo, e aqui está o grande X da questão:
Bob, o cara que entende de óleo, diz que o motor trabalha sempre a 100 graus Celsius e por isso o óleo sempre está com viscosidade de 10 centistokes ou 10 mm2/s.
Ele fala em valores médios ideais, temperatura de radiador do motor, quando o problema realmente está nos componentes internos em temperaturas muito distantes dessa média ideal.
São eles que sofrem o efeito do óleo pouco viscoso e se desgastam.
A viscosidade varia conforme a temperatura do óleo, e 100°C é a temperatura estabelecida em laboratório para a medição padronizada da viscosidade.
No entanto, as peças dentro do motor não estão todas uniformemente a 100 graus Celsius.
Há locais muito mais quentes:
Imagem: Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=KhL_g5LscTw aos 09:36 na postagem http://minhaprimeiramoto.blogspot.com.br/2017/04/o-video-russo-sobre-oleos-sinteticos-5w.html
O radiador estará perto dos 100 graus, podendo chegar a 115 e no limite a 120 porque o sistema é pressurizado, mas essa não é a temperatura do óleo em cada parte do motor.
As peças internas em atrito direto e a uma temperatura muito superior aos 100 graus — como o virabrequim, cilindros, pistões, pinos dos pistões e anéis dos pistões — receberão óleo com viscosidade inferior a 10 centistokes.
E essa viscosidade se reduz instantaneamente, bem abaixo dos tais 10 centistokes, asim que o óleo entra em contato com as peças quentes.
E essas são justamente as peças mais sensíveis ao desgaste, e é para elas que é obrigatório garantir o óleo com a maior viscosidade possível na temperatura em que se encontram.
Se o óleo fino e quente já chegar nelas com uma viscosidade ridiculamente baixa, não fará seu papel.
Daí a necessidade de aumentar a viscosidade em função da temperatura ambiente — regra prática adotada por TODOS os fabricantes de motores e equipamentos industriais em TODOS os países do mundo.
Simples assim, mas um fato que a crítica diz logo no início que é uma "má interpretação simplista e errônea"...
Afirmação que seria cômica, não fosse a tragédia da desinformação embutida.
Então Bob, o cara do óleo, entende profundamente de óleo, mas no trecho selecionado não menciona particularidades internas dos motores.
E por isso ele não considera pontos essenciais.
Não considera a influência da temperatura ambiente na hora do cárter ajudar a esfriar o óleo;
Não considera a influência da temperatura ambiente na hora da tampa de válvulas ajudar a esfriar o óleo;
Não considera a influência da temperatura ambiente em que o ar ou a mistura ar/combustível entram na câmara de combustão para resfriá-la antes da explosão e assim abaixar a temperatura de todo o conjunto;
Não considera a influência da temperatura ambiente na hora de o radiador esfriar o líquido de arrefecimento...
Que por sua vez irá colaborar para que o óleo chegue às peças sensíveis com a maior viscosidade possível...
E agora você entende a lógica da ilustração de temperaturas do vídeo russo — ela mostra temperaturas tão diferentes para o mesmo motor.
![]() |
| Demônio da lógica gosta de aparecer |
São temperaturas de funcionamento nas condições de inverno e verão — o óleo no cárter estará a 80°C em dias com neve e a 150°C em dias de verão nos desertos russos e de países para onde seus veículos são exportados.
Mesma coisa para todas as outras temperaturas mostradas na figura...
São as temperaturas que seu óleo encontrará durante o inverno na Sibéria ou no verão do deserto de Ryn, às margens do mar Cáspio.

Se o raciocínio do Bob estivesse correto — e a temperatura ambiente realmente não influísse na temperatura de trabalho do óleo — os motores dos carros circulando no Oriente Médio ou em Las Vegas não precisariam usar óleo 5W-50...
Poderiam usar tranquilamente o mesmo óleo 0W-30 do cidadão que mora no Alasca. Só que não.
Por que eles usam 5W-50 e não 20W-50?
Porque apesar de o deserto atingir mais de 40 graus durante o dia, as noites são muito frias, temperaturas abaixo de zero não são raras, então é importante facilitar a partida.
Fonte: https://www.vegas.com/weather/averages.html
Nessas condições um óleo 20W-50 atenderia?
Em um carro mais antigo com motor de partida potente, sim. A partida seria um pouco difícil nas manhãs mais frias, mas não impossível.
Com um óleo 15W-50 o arranque seria melhor e com um 10W-50 melhor ainda, e com um 5W-50 a partida é fácil.
Porque eu enfatizei antigo com motor de partida potente?
Porque tudo na indústria automotiva visa a economia.
Se eles projetam um motor que usa óleo menos viscoso, a partida em dias frios com neve caindo será facilitada, então não há necessidade de um motor de partida tão potente.
Colocam um motor de partida menos potente custando mais barato, mas que dará conta do recado. Supostamente.
Aquele exemplo de dizer que um cidadão pode fazer uma viagem da região mais quente do EUA para a mais fria, ou vice-versa, sem se preocupar com o óleo, é verdadeiro, mas é um exemplo muito fraco.
Uma coisa é fazer uma viagem atravessando regiões de climas diversos — outra muito diferente é viver permanentemente em um desses locais.
Pergunte para o pessoal que mora em Las Vegas e no Oriente Médio porque eles não usam óleo 0W-30 nem 10W-30...
O motorista que viesse do Alasca para a Flórida encontraria um estado com temperaturas quentes para um cidadão alasquiano — mas nada assustadoras para nós aqui no Brasil:
Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Florida#Climate
Máximas de 33°C — nada excepcional.
A Flórida atinge essas temperaturas apenas nos meses de verão, enquanto no Brasil muitas de nossas cidades atingem temperaturas acima disso o ano todo...
Bem diferente de Campo Grande, com máxima de 39,7°C:
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Campo_Grande#Clima
Rio de Janeiro, com máxima de 42,0°C:
São Paulo, com máxima de 37,8°C:
Ou mesmo Porto Alegre, mais ao sul e que teoricamente deveria ser uma cidade mais fria, mas que tem máximas elevadas, com máxima de 40,6°C:
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Porto_Alegre#ClimaFinalizando este bloco com as palavras do próprio Bob, o especialista em óleo:
"É fácil ver como as pessoas se confundem, já que sempre há alguma verdade nessa concepção errada."
Resumindo, a crítica cita autoridades no assunto QUE NÃO CONSIDERAM detalhes fundamentais.
Voltando ao tópico do fórum...
Aquela crítica feita contra este blog disse que somos "um caso clássico de uma simplista e má interpretação de texto (...) gerando uma conclusão incompleta e simplista, portanto, errônea."
Que ironia, né?
E falando em ironia, já que a crítica citou fontes consagradas para pesquisa no exterior, por que não citou a THE ENGINE OIL BIBLE?
Aí vai uma palhinha:
Recomendação: http://www.carbibles.com/viscosity.html
Tradução:
AGORA ESTOU TOTALMENTE CONFUSO. VOCÊ PODE SIMPLIFICAR TUDO ISSO PARA MIM?
Claro. Aqui está uma tabela de três linhas para dar a você uma ideia de onde os óleos para motores típicos são usados:
Só lembrando, alguma coisa parece estar muito fora da ordem (mas dentro da nova ordem mundial?) na visão das montadoras por estas bandas tropicais:
Aí você me pergunta:
Os automóveis honda e toyota já não usavam óleo SAE 10W-30 e funcionavam bem?
Sim, funcionavam satisfatoriamente, mas nunca foram tão duráveis aqui quanto no exterior, onde são famosos pela durabilidade.
Até onde isso pode ser atribuído somente ao desleixo dos proprietários brasileiros é questionável, porque o pessoal nos EUA não é conhecido pelo capricho com a manutenção de seus carros.
Em minha opinião, os motores dos carros japoneses durariam muito mais com o uso de um óleo de viscosidade adequada à nossa temperatura — recomendação que fabricantes como a honda fazem em todo o mundo, mas curiosamente, omitem no Brasil.
A honda não usa 10W-30 nas motocicletas?
Sim, usa — e os motores não estão nada felizes com o óleo 10W-30.
Os motores de motos de arrefecimento a ar estão sofrendo — é só ver as motos da honda e os coitados que se iludiram com a propaganda maciça do óleo genuíno bom pra caramba, tão bom que a honda colocou o nome dela...
Desabafo: http://www.reclameaqui.com.br/17805672/honda/oleo-inadequado/
Sabe, eu adoraria ver o que o dono dessa moto responderia para o autor da crítica quando ele dissesse:
"Outra bobagem: Exageros ao dizer que "óleos mais finos são consumidos muito mais rapidamente"..."
A prova de que são consumidos mais rapidamente foi que o dono acostumado com motos não estava preparado para o ritmo alucinante de sumiço do óleo mais fino.
Sumiço mais rápido assumido pela própria fabricante do óleo, como vimos naquele vídeo da shell.
Os motores de carros e de motos com arrefecimento líquido estão em situação melhorzinha.
Os motores com óleo 10W-30 sofrem sempre?
Os motores com óleo 10W-30 sofrem mais nos dias quentes do ano e nos congestionamentos.
Os motores com óleo 0W-20 sofrem sempre. No inverno todo mundo tem um alívio refrescante.
O problema é que não adianta o motor funcionar bem com o óleo fino na maior parte do ano...
O estrago feito por má lubrificação em um único dia quente pode ser pequeno, mas é irreversível, apenas isso...
E o desgaste é cumulativo e progride geometricamente — ou seja, cada vez mais rápido.
Cada vez que seu motor é submetido ao estresse térmico e de atrito excessivo por má lubrificação por óleo inadequado ele desenvolverá desgastes somente reparáveis com a substituição ou retífica das peças.
Detalhe: motores modernos não admitem retífica de virabrequim, somente trocando o conjunto todo.
E por conjunto todo, as concessionárias gostam de trocar o motor inteiro.
Custos de reparação ficam na casa de 21 a 30 mil reais... que não são cobertos pela garantia da honda, porque constituem "mau uso"...
Mesmo quando o
Reclamação: http://www.reclameaqui.com.br/10208624/honda/honda-civic-2013/2014-com-25000-km-e-fundido/
E sejamos justos com a honda, eu também denunciei a mesma prática pela toyota:
E quais as consequências da adoção do óleo 0W-20?
No finalzinho de 2014 eu previ uma situação similar às de motos honda com óleo genuíno, muita gente reclamando da pouca durabilidade dos motores.
Passados 2 anos, a quebradeira está começando...
Reclamação: http://www.reclameaqui.com.br/n1pyJP1NXtLU6vza/honda/motor-fundiu-com-menos-de-120-mil-km/
Reclamação: http://www.reclameaqui.com.br/1dhie6VK7E4AUghf/toyota/veiculo-corola-2017/
Sabe, é curioso...
Essa crítica tão empenhada contra o blog não enfocou comparar um óleo SAE 0W-20 com um óleo 10W-30, que era a questão denunciada aqui, e sabe por quê?
Porque para isso não existem argumentos contrários...
Ou melhor, os próprios argumentos que foram usados na crítica se opõem aos fatos...
O autor da crítica sabe muito bem que a viscosidade W se refere à temperatura na partida, abaixo de zero grau, mas faz de conta que ela é importante para discutir a viscosidade a 100°C.
Ele até menciona que o óleo chega a 150° dentro do motor — mas continua a raciocinar exclusivamente em cima do óleo 10W-30...
O conhecimento do assunto que o autor demonstra está acima do nível de um curioso.
Está mais próximo, eu diria, de um profissional da área automotiva... essa é minha opinião.
O que transparece na crítica é mais do que apenas desconhecimento ou engano — existe uma interpretação intencionalmente tendenciosa das coisas que foram ditas e dos fundamentos que ele mesmo cita como fontes.
Na minha avaliação, tal atitude poderia ser interpretada como uma disposição de espírito que inspira e alimenta ação maldosa, conscientemente praticada.
A defesa tão enfática de pontos de vista totalmente errados, tentando desqualificar as denúncias daqui do blog, embasada em argumentos apenas com aparência de corroboração, mas sem ligação com o fato denunciado, faz com que eu acredite cada vez mais na minha "teoria da conspiração".

Depois de ver essa crítica tão bem elaborada com argumentos tão distorcidos, estou ainda mais convencido de que não é só teoria não...
Fatos:
Os carros são os mesmos, tanto lá como cá.
E as leis físicas que determinam a necessidade de usar um óleo de viscosidade adequada à temperatura da região de utilização são universais.
Chamam-se Leis da Termodinâmica, e sem o conhecimento dela os motores nunca teriam sido projetados...
Elas prevalecem por mais que os defensores do contrário esperneiem e elaborem textos "matadores" demonstrando todo seu [des]conhecimento.
O melhor termômetro para ver o efeito desses óleos recomendados pela honda aqui no Brasil é muito fácil:
Faça uma pesquisa por "honda fervendo" ou "toyota fervendo" no google e tente contar quantos casos aparecem.
O pessoal coloca a culpa na tampa do radiador, coitada...
Confundem efeito com a causa, adiam o problema e correm a postar um vídeo no youtube.
O motor ferver é indicativo de um motor trabalhando em excesso de temperatura.
Excesso de temperatura por excesso de atrito interno por má lubrificação devido a um óleo de viscosidade inadequada para a temperatura ambiente típica do Brasil.
Simples assim.
Por mais que tentem distorcer meus argumentos, é impossível distorcer os fatos e as leis da Física.
Um abraço aos leitores amigos e aos críticos sinceros deste blog, e em especial ao leitor e filósofo John Locke, que defendeu o blog lá no fórum da crítica, sem obter resposta.
Fiquei contente por ele ter postado lá as tabelas que obrigariam o autor da crítica a entrar em detalhes espinhosos — se este estivesse disposto a esclarecer o assunto e não apenas a tentar desqualificar as informações apresentadas aqui.
E também agradeço ao leitor Daniel Wippel que havia me informado sobre as tabelas técnicas de viscosidade lá da Viscopedia por outro motivo, e elas acabaram sendo muito úteis para esta série de postagens.
A postagem de amanhã trará um exemplo muito concreto da prática comum das montadoras de oferecer orientações confusas sobre o óleo do motor.
Não faz parte da série em resposta à crítica, mas o assunto é correlato.
Até a próxima,
Jeff






























