sexta-feira, 11 de abril de 2014

Fatos pouco conhecidos sobre bitrens

- Bitrens nunca andam sozinhos. Você sempre encontrará um bitrem atrás de outro bitrem.

Imagem: http://www.cargapesada.com.br/edicoesanteriores/edicao139/bitrem139.php  

- Aquela lei sobre a placa obrigatória sinalizando "Veículo longo - 30 metros" não pegou, ninguém usa. 

- Um bitrem subindo a serra não cede a vez para ninguém. Se você estiver descendo e ele estiver subindo, jogue para o canto porque ele invadirá sua pista a fim de fazer a curva, sem remorso nem piedade. 

- Bitrens odeiam perder o embalo. Nunca pense em fazer uma ultrapassagem que possa interferir com o ganho de velocidade de um bitrem para subir uma encosta, porque ele não reduzirá a velocidade somente porque uma insignificância como você está na frente dele. Te vira.

- Um par, trio, quarteto ou a quantidade que for de bitrens madeireiros carregados sobe a serra da Ribeira pela BR-476 a exatos 12 km/h.

- Um bitrem madeireiro subindo a serra a 12 km/h na sua frente te fará pensar a todo momento “E se essa &*%%@ não aguentar a subida e começar a vir para trás? E se essa &*%%@ de carga se soltar?”

- Esse pensamento martelando sua cabeça por 42 segundos fará com que você tome a decisão que pode acabar com sua vida para sempre, a de ultrapassar um bitrem numa estrada tortuosa sem ter visão do que vem em sentido contrário.

- 42 segundos a 12 km/h significam uma tortura lenta por intermináveis 140 metros.

- O efeito alucinógeno causado pelos bitrens sobre os condutores de outros veículos faz com que eles optem por acabar com a lenta tortura, arriscando tudo para sair dali.

- Ao ser ultrapassado, um bitrem prova que Einstein tinha razão, tempo e espaço são relativos.

- Durante a ultrapassagem, um bitrem se estica e aumenta seu comprimento ao mesmo tempo que você aumenta sua velocidade.

- O comprimento do cavalo do bitrem tende ao infinito quando aparece um carro na curva à sua frente.

- Você descobre como é bom estar vivo quando é obrigado a desacelerar a moto de 40 para 12 km/h e encaixá-la no espaço de 5 metros entre dois bitrens. Se conseguir.

- A alegria é grande quando você descobre o que um piloto de caça sente ao pousar num porta-aviões. Já o cagaço é indescritível.

- Subir a serra encaixado entre dois bitrens madeireiros a 12 km/h te fará pensar a todo momento “E se essa &*%%@ não aguentar e começar a vir para trás? E se essa &*%%@ de carga se soltar? E se essa &*%%@ aí atrás não estiver me vendo?”

E o ciclo recomeça ao infinito e além.

**

Agora falando sério, considero criminosa a autorização para uso de bitrens em estradas que não comportariam sequer carretas convencionais, como a BR-476.

Bitrens são veículos para uso em rodovias duplicadas planejadas com curvas e rampas suaves, como a Imigrantes (onde são proibidos de rodar no trecho da serra — por enquanto...), a Bandeirantes, quando muito as principais BR, como a BR-101 ou a BR-116, a Via Verde dos curitibanos.

O uso de bitrens em estradas construídas para o trânsito de mulas, como as estradas anteriores aos anos 60 no Brasil, representa uma armadilha mortal, uma ratoeira armada esperando pelo próximo motorista incauto.

É proibido o trânsito de veículos a velocidades abaixo da metade da velocidade máxima autorizada para uma via — isso já proibiria bitrens em praticamente todas as rodovias.

O trecho da serra da Ribeira na BR-476 tem velocidade estipulada de 40 km/h, portanto os bitrens rodam abaixo da velocidade mínima permitida, portanto não teriam condições legais de utilizar essa via.

Mas no Brasil, fiscalização se preocupa mais com motociclistas de viseira aberta ou selinho no capacete, porque nós motociclistas não temos costas quentes.

O cumprimento da legislação quanto à velocidade mínima iria contra os interesses de fazendeiros e empresários, que afinal são quem paga os impostos pesados e, em última instância, custeiam o salário dos chefes dos agentes da lei. 

O governo catarinense até tentou proibir o uso de bitrens, mas os empresários chiaram e ganharam a parada.

Os empresários são contra até estudos técnicos que recomendam o uso de cavalos 6x4, que minimizaria o desgaste do asfalto e geraria freio motor suficiente para descidas de serra.

O argumento deles é que isso aumentaria demais os custos e eles já passam por dificuldades — argumento curioso para quem é dono de uma frota que vale dezenas ou centenas de milhões de reais.


Também alegam que não há evidências de que os bitrens causem maior número de acidentes do que outros caminhões. 



Imagem: Colagem para resultados da busca no google por "acidente bitrem" — há fotos cabulosas impublicáveis.

Talvez haja menos evidências porque os acidentes durante tentativas de ultrapassagem nem sempre impedem os bitrens de seguir viagem, o pessoal se manda e fica bem na fita, como vimos no acidente filmado no mês passado


Na medida em que a frota de bitrens for envelhecendo, mais e mais desses monstrengos estarão envolvidos em acidentes, como acontece hoje com as carretas que perdem o freio nas descidas de serras.

Para os empresários, não importa que morram pais de família e famílias... sempre haverá outros para repor a mão de obra barata. Os caminhões têm seguro.

Só o que importa é o lucro no caixa.

Triste.



Imagem: futuroscaminhoneiros.blogspot.com

Em breve é capaz de a gente ver rodotrens aberrações como essa aí, projetadas para estradas australianas — retas que cruzam planícies desérticas   descendo a nossa Serra do Mar.

Se vão chegar lá embaixo ou não, é outra história.

Mas a legislação viária já está pronta, veja a placa na primeira imagem.

Um abraço,

Jeff

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